jueves, 29 de julio de 2021

SIMONE BILES.

 colado do blog Un jeito  manso. 

 Simone Biles, nos braços de um anjo


 

......Imagine-se isto numa outra dimensão, num contexto muito mais profissional e mais mediático, mas com uma jovem que, em menina, a par dos seus irmãos, esteve a cargo de uma mãe com problemas de álcool e drogas, várias vezes presa, sem possibilidade de lhes proporcionar estabilidade ou, até, a alimentação suficiente. Simone Biles viveu consecutivos dias de fome e de medo. Acabaria por ser criada pelos avós. Já adolescente viria a sofrer agressões sexuais por parte do médico que acompanhava as atletas americanas e, segundo tem referido, disso guardou um trauma para o resto da vida, ainda receando que a toquem mesmo que em actos meramente clínicos.

Simone Biles é mais baixa, muito mais elástica e forte do que a maioria das mulheres da sua idade. O que ela faz com o seu corpo desafia as leis da gravidade. Parece levada nos braços de um anjo. 

Horas e horas e horas de treino, horas e horas e horas de exercício, de busca da perfeição. Com as câmaras sempre em cima, escrutinada em permanência, Simone, tal como os desportistas de alta competição, está sujeita a uma pressão esmagadora. Ela tem que ser a melhor, a superlativa, a ganhadora de medalhas, a perfeita, o exemplo, a mais resiliente, a mais inspiradora. Se, por acaso, tiver dias de desconforto, dias de hesitação, dias de dor física ou de dúvida terá que escondê-los e ultrapassá-los para que ninguém suspeite de que não é Simone Biles. 

As suas articulações, os seus músculos, os seus ossos e a sua força anímica têm que estar sempre no máximo para que, nunca, nada falhe, Nos treinos, Simone corre, salta, eleva-se no ar, rodopia no chão e no ar, contorce-se, aterra e eleva-se e voa. Horas e horas, dias e dias. E, pelo meio, entrevistas, sessões fotográficas.

Na sua cabeça, os seus demónios: a recordação do medo, da angústia e da fome dos tempos em que a mãe se perdia dos filhos, a par da repulsa e da vontade de esconder a memória do toque abusivo de Larry Nassar, devassando o seu corpo inocente.

Enquanto corre para saltar e rodopiar, esses diabos rodeiam Simone. E rodeiam estes e rodeiam os outros, os diabos menores, os diabos avençados pelos mercados, pelos investidores, que alertam: se não continuas a ser a melhor, retiramos-te o tapete, cuidado...


Ao elevar-se para saltar, agora nos Jogos Olímpicos, Simone perdeu momentaneamente a consciência de si, deixou de saber onde estava e, em vez das duas voltas e meia no ar, apenas deu volta e meia. Ao aterrar, vacilou, estremeceu. Nela, super-mulher, perfeita, isto é estranho. Em qualquer outra pessoa, em mim, em si, se nos conseguíssemos elevar no ar meio metro e, ao mesmo tempo, darmos meia volta, certamente ficaríamos sem saber de que planeta seríamos e cairíamos desamparados, estatelados, partidos, no chão. Para nós, não para Simone -- que costuma saltar, voar, encarpar-se, rodopiar, tudo como se fosse um boneco de molas -- que cai sempre de pé, aprumada, elegante e segura.

essa altura, quando, no ar, o corpo tentou evadir-se da mente, percebeu que, a continuar, poderia enlouquecer ou cair desamparada, magoando seriamente o seu corpo.

Parou e, corajosamente, explicou o que se passava.

O mundo pasmou com a surpreendente retirada de Simone e com a inesperada confissão. Simone é humana, afinal.

Não sei bem que mundo é este nosso em que se pretende que os bons sejam muito bons, bons demais, excelsamente bons e em que se desprezam aqueles a quem os deuses deixam de levar nos braços. Mas sei que Simone Biles, a gigante, fez mais pelo verdadeiro sentido desportivo e pela necessidade de acarinharmos a humanidade daqueles que admiramos do que mil discussões estéreis e mil palavras cheias de lágrimas de crocodilo. 

 


 

 

 

Carmen: "L'amour est un oiseau rebelle" (Elina Garanca)

jueves, 15 de julio de 2021

Non nobis Domine. Henry V. Enrique V

De la película HENRY V, este bellísimo canto que se entona al final de la Batalla de Agincourt: NON NOBIS DOMINE, DOMINE NON NOBIS DOMINE SED NOMINI, SED NOMINI, TUO DA GLORIAM.

martes, 13 de julio de 2021

A PARANÓIA DE PORTUGAL ou a história mitológica.

     

Fernando Venâncio, no facebook, comenta algo bem interessante que eu sempre percibí  muito evidente em Portugal e sempre andive a buscar explicações. Sim há uma paranoia o respeito sobre a sua identidade e lugar na historia.


A PARANÓIA DE PORTUGAL
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Eduardo Lourenço, sempre lúcido, escreveu (e eu cito dum artigo de Luís Faria, no "Expresso" da semana passada):
«Todos os povos vivem mais ou menos confinados no amor de si próprios. Mas a maneira como os Portugueses se comprazem nessa adoração é verdadeiramente singular».
Não se duvide. Portugal nasceu com uma "missão" para o Mundo. Portugal teve, desde todo o sempre, um "destino". Portugal tinha, à viva força, de aparecer em cena... Ou o Mundo soçobrava.
Uma das características da paranóia é a convicção íntima de que tudo, mas tudo mesmo, tem um sentido. Não foi por acaso que alguém me olhou como olhou. Não foi por acaso que sussurrou uma meia frase. Ou que deixou de fazer isto, aquilo ou aqueloutro.
Assim pensam os ocultistas portugueses, com António Quadros e António Telmo à frente. E dizem-no com todas as letras: o Acaso não existe. A marcha do Mundo esteve condicionada desde a eternidade, e coube a Portugal, sempre, um papel central nisso.
Afonso Henriques esteve destinado a ser rei, Aljubarrota destinada a ser ganha, Alcácer-Quibir destinada à catástrofe. Tudo tem um sentido, tudo esteve desde sempre predestinado.
E tudo isto vende. Oh, se vende! A malta péla-se por forças ocultas, que - tão queridas - nos desculpam alguma falta de vontade, alguma preguiça de tomarmos o tal destino pelos chifres.
Senhores & Amigos: que seja esta a última geração de "condicionados".

 
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[ na ilustração: batalha de Alcácer-Quibir ]
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