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martes, 10 de marzo de 2026

Sachando nos eidos alheios

 Imagen Numa escapada polo https://aspirinab.com/, blog amigo, coa máscara de "reis", andei um pouco por alí.  O Valupi fixo uma pergunta e da resposta quis por amizade  tirar  um post. Agradeçido deixo aquí o recordo. 

 

Bons e xenerosos

«Quer isso dizer que ninguém à direita te mereceria admiração moral? É só uma curiosidade.»

Agradeço a pergunta. Cingindo-me só a Galiza : Gostaria muito que assim fosse. Pois uma direita organizada e moral para o conceito de nação política galega é imprescindível. Houve e há uma grande tradição de nomes que cumprem esse requisito, mas estão já na história. No caso de valorizar a uma pessoa política pela sua moral, acho que não sou sectário, pois ainda que pareça virar, e vire, para a esquerda, não tenho, ataduras nem reparos em admirar, seja quem for, o bom fazer e estou co olho posto nos personagens da direita ou do centro. No caso de desejar o melhor para Galiza no desenvolvimento de nação política e cultural qualquer que ararar com esses bois, é prá mim, um dos “bons e xenerosos”, conceito moi usado no nacionalismo e galeguismo histórico para definir as pessoas com “moral”.

Postos assim, ainda a risco de ser um pouco maçado no relato, citarei :
Afonso Daniel Rodriguez Castelao: pai do nacionalismo moderno. Médico, artista pintor, saltou a areia política como necessidade de mudar as condições de Galiza e os seus cidadãos. Na procura dum mundo próprio para os galegos, dentro de Espanha, era um homem de centro e mais tarde de centro esquerda que liderou o ressurgimento galego nos tempo da República e que ninguém discute hoje, desde a direita a extrema esquerda, a sua liderança, luta e moral pelos ideais de todos os galegos. Ministro da vencida República, era pragmático, possibilista e homem de paz. Morreu no exílio em Argentina depois duma vida cheia de moral, laica, social, respeito os direitos mais fundamentais das nações e das pessoas.

Ramón Otero Pedraio: católico, fidalgo, intelectual, professor. Companheiro de Castelao no partido galeguista da época republicana, respeitado como figura emblemática, honesta, com uma moral católica e profundo sonhador e activista duma Galiza dono de se mesma. Ninguém hoje duvidaria do seu magistério, liderança para o nosso país e respeitado por todas as camadas sociais.

Manuel Fraga Iribarne: Ora essa. A quem me chame contraditório, palerma, pateta, andar na bebedeira ou algum dos muitos adjectivos tão sonoros e habituais neste blog, produto da variedade e riqueza da língua portuguesa. Será compreensível, e tal vez acho que apropriado, no entanto, seria mui injusto receber o apelativo de sectário. Este homem ( para dar contexto) foi ministro com Franco. Mente privilegiada, catedrático, homem de acção, visceral nas formas, era todo o contrario do estereotipo que os espanhóis têm de nós os galegos ( estereótipos nada positivos, mas essa é outra história). Foi o grande líder da direita espanhola depois da morte de Franco, ainda que o Rei não contou com ele para dirigir a transição, mais tarde fundaria o actual partido da direita o PP, actualmente na oposição. De família humilde, emigrante durante a sua infância na Cuba, foi um avançado e reformador na ditadura ( do pouco que se podia). Depois de dois intentos para atingir o poder para Presidente do Governo de Espanha, desistiu da liderança da direita espanhola e apresentou-se na Galiza para ser presidente da Xunta de Galiza. Foi Presidente quatro legislaturas. Tinha, política mente, essa dupla personalidade de ser para uns o grande líder espanhol e para outros, os galegos, um homem que representou a Galiza dentro de Espanha com personalidade e valentia que nos entendia, que sintonizava co país, que era um dos nossos. Tal vez fosse populismo e tactismo, no entanto o coração não engana. Nos seus governos havia nacionalistas ou galeguistas de direita e dentro deste jogo fez políticas avançadas e manifestou-se ele, de forma supressiva, como um líder da ideia da Galiza, da língua, do ser, e da gestão dos nossos recursos. Essa é a parte positiva além de que no plano moral, e de honestidade pessoal e política ninguém duvidava. Nunca tive, nos muitos anos de actividade política, suspeita de corrupção. Conseguiu boas relações com a esquerda nacionalista, coas elites económicas e culturais, e pode-se dizer que atingiu ser respeitado moralmente pela sociedade em geral. A sua figura era moi respeitada tanto na Galiza como em Espanha e isso dava sempre um plus de categoría a Galiza.

Depois a parte negativa, dizer que gostava do culto a sua personalidade o que fazia que misturada a sua grande vocação política e o seu narcisismo, fizera políticas populistas e mentíreis por vezes. Que não fiz reformas profundas e que o seu lado cresceu o clientelismo e o caciquismo secular. Que havia um partido nacionalista de direitas galego que ele conseguiu atrair para si e pouco a pouco ficarão mergulhados no seu grande partido. Foi isto uma grande mágoa para a política galega, pois um partido nacionalista como têm bascos e catalães e necessaario. Embora o seu poder atraente ganhou e os parvos perderam, eis a questão da vida. Depois, perdeu uma legislatura e deixou Galiza. Os seus voltaram a ganhar com Nuñez Feijoo a Xunta e até de agora. Neste caso calha a perfeição, o dito popular de quem melhor era o mão conhecido pelo bom por conhecer. Deixou um baleeiro grande na política galega e chegou a vacuidade, a indigência intelectual e a pilhéria de quem hoje pretende, desde a oposição ser presidente do governo de Espanha.

Todos mortinhos, mágoa. Hoje ando a buscar em Galiza, e não encontro. Depois de Fraga os medíocres e ordinários ocuparam e ocupam o poder “daquela maneira” que não seja prioridade nenhuma Galiza como ente política e a defensa da língua, a economía e a cultura galegas. São mandados, gestores de alguém, e obedintes as consignas do seu partido em Madrid. Priorizam políticas populistas para a sua clientela e o mantenham-se no poder controlando como seja os meios de comunicação, públicos e privados. Pouca moral. Eles não têm toda a culpa.
__

 

Oferta do nosso amigo reis. Para entender o contexto, ler este seu primeiro comentário.

thoughts on “Bons e xenerosos”

  1. o primeiro que me veio á mente , quando lhe perguntaram sobre figuras “morais” galegas foi exactamente Castelao , depois um cura obrero velhinho , velhinho , anónimo, e a seguir Fraga. curioso.

  2. Quixen saber quen fora o vampiro no mundo dos homes e fun ler o seu nome de
    bronce no rico mármore da campa. O nome só abondoume: fora un canalla que
    roubaba para dar regalía ao seu bandullo de porco; dono da xustiza, roubaba
    dende a súa confortábel casa. Para que dicir máis? Era… era un cacique !

  3. Yo: todos estamos cheios de contradições, assim pula e avança o mundo. A tua curiosidade acho ter resposta já no escrito.
    Manuel Fraga Iribarne: Ora essa. A quem me chame contraditório, palerma, pateta, andar na bebedeira ou algum dos muitos adjectivos tão sonoros e habituais neste blog, produto da variedade e riqueza da língua portuguesa. Será compreensível

  4. Eu escolhia o Agostinho da Silva, o Miguel Torga e o Aquilino Ribeiro. Gosto da “moral” deles, sem sofisticação, e espelhada nas suas vidas.
    Por desgraça não poso opinar do Agostinho da Silva, mas tanto de Torga como de Aquilino Ribeiro, também gosto da sua moral como módelo para qualquer grupo de cidadãos. São os dois moi grandes.

  • reis, nenhum desses três está vivo. Não sabemos o que diriam e fariam se estivessem. Logo, a questão remete para os vivos.

    Como é aí na Galiza, ou que seja a Espanha, identificas alguém como autoridade moral?

  • outro que sucumbe às modas ou ao l air du temps… esses senhores são como o tailleur chanel , intemporal. e fica bem a toda a gente.

  • mas não existe uma figura que tenha reconhecimento comunitário nessa dimensão por palavras e actos.
    Eis a questão para mim sim há algúm referente moral da vida pública, mas concordo moito co post e ressalto esa frase tua da falta de reconhecimento comunitario, pois a sociedade está tão quebrada ideológicamente que o meu candidato seria esterco para outra gente. Em Espanha hoje é imposível conseguir um consenso sob um personaje, incluido o rei, pola informação e pulheria da direita nacional de converter todo em terra queimada até conseguir o poder.
    No entanto a minha opinião na Galiza: José Manuel Beiras, Camilo Nogueira, Gonzalez Laxe, já retirados da vida pública, podiam concitar uma certa unanimidade de homes públicos, honestos e com moral. Na Espanha, eu eligiria, sem dúvida, o ex presidente Zapatero, que pode dar moi bons serviços a cidadania.
    Embora os meus candidatos seriam motivo de chacota ou de enfadamento por moita gente. Eles são todos de esquerda dialogante e os tempos não estão para reconhecementos de valoração cidadana.

  • este excerto é delicioso para ilustrar a tartufice do valupi , um ser amoral , tal e qual o seu ídolo e mentor nestas questões de moral:
    “. É precisamente por ele saber disso, e apesar do óbvio dano à sua imagem pública ter assumido fruir desse imóvel, que a sua atitude é brilhantemente amoral. Está para além do que os outros lhe querem impor como suposta correcção ou dever social. É uma escolha de quem sabe que a liberdade não tem de pedir licença à moral para ser essencial e existencialmente boa.” autor ? o valupi , claro,

  • «Grave? Não. Grave é ir à rua, perguntar a quem passa o que seja a moral, e descobrir que quase ninguém elaboraria uma resposta acima da indigência intelectual.

    Segundo Bernard Williams ainda hoje o melhor pensamento ético é o dos gregos antigos que não inclui Deus nem precisa dele. Não usa de nenhum imperativo categórico vazio dado que, num sistema de ideias não existe qualquer ‘moralidade’ no sentido de uma classe de razões ou exigências fundamentalmente diferentes de outros tipos de razões ou exigências. Assim não há um abismo entre a esfera das ‘regras morais’ públicas e as dos ideais pessoais privados.
    Williams considera um erro identificar, completa ou tendencialmente, o conhecimento ético como conhecimento científico e conceber a ética filosófica como uma ciência exacta (lógico-matemática ou da natureza). Daí recusar a teoria Kantiana de atribuir a moral a um ‘dever’ que o poder, utilitariamente, transforma em ‘lei’.
    A “moral” é um conceito do pensamento abstrato, metafíco aplicado ao nosso comportamento diretamente relacionado com cada vida e experiência pessoal; assim o conceito de moral varia de acordo com a evolução do conhecimento e costumes de cada época histórica; é um conceito com aparência de uma crença que depende do conhecimento e das circunstâncias de cada idade histórica.

  • jose neves, tens de rever os apontamentos acerca do que é a ética nos gregos antigos. Deixo-te só uma pista: quem é que não quis morrer sem antes pagar o galo a Asclépio?

  • Poderia citar vários nomes de quem já cá não está, mas actualmente só existem duas pessoas: o Sr.º Dr.º Alberto João jardim e o Sr.º Dr.º Rui Rio.

  • Hahaha o melhor pensamento etico é o dos gregos antigos que tinham a instituição da escravatura. Genial

  • bla bla bla ,
    moralidade é a coerência entre os valores proclamados , entre as palavras e os actos , entre o que se diz e o que se faz. um bandido confesso é moral , não trai a confiança de ninguém.
    a definição de moralidade como coerência toca num principio transversal a todas as épocas e culturas s: a repulsa pela duplicidade. a hipocrisia é detestada em quase todo o lado — porque destrói confiança, e sem confiança não há sociedade.

    1.  

     

    “… quem é que não quis morrer sem antes pagar o galo a Asclépio?”

    Há autores que defendem que Sócrates o que disse foi “Críton, deves um galo a Asclépio”. Por via da duvida que Sócrates colocou anos antes quando, ao passarem em frente ao altar das oferendas a Asclépio, este declarou que as oferendas ao deus para ter uma vida melhor não serviam para nada. Ao que que Críton lhe contrapôs “veremos se manténs o mesmo no dia da tua morte”. Faz toda a diferença e dá bem nota da certeza que Socrates tinha na consciência de cada um como a ultima instância moral.

    E valupi, o Agostinho da Silva, o Miguel Torga e o Aquilino Ribeiro estão vivos. muito mais vivos que uma grande parte dos ungidos públicos contemporâneos. E quando equiparados com escroques infames como Zapatero, como faz o Reis, é a prova cabal de que já estão, no mínimo, moribundos muitos espíritos cujos dedos martelam teclados. O que não falta em Torga, e só nos Novos Contos da Montanha, não é preciso procurar muito, é uma mão cheia de exemplos de autoridade moral que já não se evocam, por desconhecimento e, nos casos piores, por taticismo.

     

  • Miguel M. Elias,, por alusões. Ninguém comparou.O jogo estava em nomear referentes vivos, niste caso concordamos nos mortos, aleluia. Tal vez as suas informações, além do seu proprio estudo e conhecemento, sejam apanhadas de certos opinadores espanhois, amorais a mais não poder, para referir a Zapatero como: escroque infame. Tampouco, nem quem assim pensamos temos o espíritu moribundo, sinto comunicar-lhe que é todo o contrario. Tal vez não chegaremos a acercar posiciões, seja como for nem eu ,nem Zapatero , estou seguro, defineremô-lo a você, como escroque infame.

  • reis, não conhecia José Manuel Beiras, Camilo Nogueira e Gonzalez Laxe. Mas fiquei a saber que são os três da esquerda galega. Quer isso dizer que ninguém à direita te mereceria admiração moral? É só uma curiosidade.

    Quanto a esse pobre diabo que veio aqui despejar fel para cima de Zapatero, o seu castigo é não conseguir compreender o que lhe disseste. Nem que ficasse a pensar nisso até o Inferno congelar.

  •  

     

    xoves, 11 de decembro de 2025

    O aspirina b cumpre vinte anos.

     

      

      Faz vinte anos, eu enfoscado como um tal   "reis" descobri um blog português para comentar, ler, partilhar impresões,toda a vez para também aprender um pouco de português. Pois, milagre do tempo,  a cousa chega até hoje despois de vinte anos. 

    Faz dez anos o aspirina b cumpría dez anos, daquela tivemos un agarimoso intercambio de mensajes de felicitação e recordações dificéis de olvidar. Aquí neste link está  o post da celebração dos dez anos. 

    https://arompidadodia.blogspot.com/2015/11/o-aspirina-b-cumpre-dez-anos.html . 

         Já passarom dez anos. Era o desejo que daquela tinhamos todos e o mesmo valupi (patrão da barca). Cousa bem difícil de conseguir. Daquela o post titulou-se : 

    10 anitos de iniciação à aprendizagem. Moi estilo simples e sarcástico de Valupi. Hoje o título é 20 anos de pardieiro, que leva também esa sencillez e socarronería valupiana. Sabendo que pardieiro, tanto para o galego como o português, vem a ser algo assim como casa pobre triste, em ruinas ou envelhecido. 

     

    Neste vinte cumprimento de anos, 20, voltamos os parabéns e os agarimosos saudos. 

    https://aspirinab.com/valupi/20-anos-de-pardieiro/ 

    1. “Algo se muere en el alma cuando un amigo se va…. no te vayas todavía no te vayas por favor, que hasta la guitarra mía llora de melancolía cuando dice adios”. ( sevillana popular). Parabens pelos vinte anos. Já andei mais por cá do que ando nos últimos tempos, embora ainda ando. Sempre foi e segue sendo um prazer ler os post. Eu moito tenho aprendido aquí, de uns e outros, especialmente do patrão da barca. Adiante meu, isto ojalá não morra, já temos moita esterqueira à solta por ahí, assim que isto tinha que ser Bem de Interês Cultural a conservar BIC), e que veham então os enveloppes.XD. Seja o que for, obrigado sempre pelos vinte anos.

       

    2. Muito obrigado, reis, pelas tuas generosas e graciosas palavras.

      Fazes muito bem em não gastar o teu precioso tempo por aqui. Felicidades nessa terra de encantos, a Galiza irmã.


       


     

    xoves, 30 de abril de 2020

    A utilização da analogia da luta militar contra o Covid19, e o aplauso ò trabalho das Forças Armadas, indica que és um fascista?




    No blog, aspirinaB, a respeito dum comentario de Francico Louça a criticar a utilização da imagem militar na luta contra o Covid 19. 

    Um exército não é mau nem bom, depende da comunidade.

     

    «Ainda nos vamos arrepender de ter tolerado, alguns com bonomia, a alegoria da ‘guerra’ para descrever a resposta à covid-19. Estava-se a ver que a imagética guerreira se iria espalhar sem amanhã, os governantes adoram imaginar-se como Churchill de charuto ou como Eisenhower na sala dos mapas, com tanques miniatura à voz dos chefes (Schwarzkopf na “Tempestade do Deserto” é um mito mais infeliz, melhor ficar com Eisenhower). O problema é que uma guerra que não é guerra conforta governantes que se pensam como um comando militar, permitindo a ideia de que viveremos em exceção permanente. Não faltarão ministros inebriados pelo silêncio no espaço público ou pela vontade de calar oposições. Há um Orbán escondido em cada esquina do poder.»


    Francisco Louçã

    *_*

    Do que fala o Anacleto? As utilizações da semântica militar são de uso corrente, desde sempre e para todo o sempre, nos discursos medicinais e das políticas de saúde. Acaso os antibióticos e as vacinas não são uns dos melhores recursos que os humanos descobriram para “combater” as doenças? Estamos no reino dos clichés mais estafados – mas precisamente porque são úteis, eficazes, bondosos na sua ênfase retórica. No caso da crise da pandemia de coronavírus e suas consequências patológicas, a COVID-19, alguns dirigentes políticos aplicaram em discursos que se pretendiam institucionalmente fortes termos directamente relacionados com as guerras entre povos e nações. Estavam a recorrer a uma analogia de percepção e entendimento imediato para alertarem e prepararem as sociedades para alterações radicais na economia e estilo de vida que, exactamente, só comparam com situações de guerra militar mesmo que esta crise de saúde e de produção e consumo económicos tenha inúmeras e inevitáveis diferenças. O curioso é constatar que quem tal simetria adoptou nas democracias ocidentais não sofre de tiques ditatoriais nem se lhes conhecem pulsões bélicas. Foram precisamente aqueles que entram nesse retrato perigoso e decadente, como Trump e Bolsonaro, quem disparou na direcção oposta, negando durante meses as evidências que vinham da China e alastravam pelo mundo e preferindo o pensamento mágico e uma ignorância científica que não estará longe de ser criminosa.

    O comentário deste comentador profissional (é nessa condição que o faz) é, portanto, absurdo. Não existe qualquer imagética guerreira a espalhar-se seja onde for, especialmente se falarmos da Europa, a não ser nos vulgares discursos mediáticos sobre aqueles que estão “na linha da frente” e a quem se tem reconhecido o justo “heroísmo” com que “lutam” arriscado a sua vida para salvar as nossas. Não existe, e é pena, pois há uma tradição guerreira, que os militares de vocação cultivam, inerente à génese da democracia – portanto, garante da liberdade sobre a qual se erigiu o Estado de direito. A religião e o exército, para um fanático como o Anacleto, podem não passar de excrescências imperialistas que os amanhãs que cantam estão fadados para apagar da História, daí ter carregado de lança em riste contra moinhos. Mas bastaria recordar os inventores atenienses da “política”, recordar Rousseau, recordar o 25 de Abril, para reconhecer que um exército não é mau nem bom, depende. Depende da comunidade.

    No vídeo musical à disposição acima, vemos um dos maiores sucessos populares (em visualizações) com cantores portugueses. Os valores de produção da coisa são paupérrimos e a realização é amadora. Contudo, o efeito de mergulho emocional na audiência é imediato e os mecanismos de narrativa presentes (elementos das Forças Armadas Portuguesas, o apoio médico e social à crise, a bandeira nacional, a letra patriótica, a melodia lírica – e os artistas, com a sua semiótica corporal e vocal) despertam um sentimento de ligação colectiva profundamente envolvente. Ninguém de ninguém sai da experiência que o vídeo oferece com vontade de pegar em armas, de culpar chineses ou de abolir direitos cívicos. É precisamente ao contrário, ficamos unidos subjectivamente a qualquer outro ser humano que se encontre a sofrer ou a ajudar quem sofre – independentemente do género, idade, cor da pele, nacionalidade e profissão. Queremos imitá-los, ou saudá-los, agradecer-lhes.

    Portugal teve uma guerra colonial que causou milhares de mortos, feridos, mutilados e traumatizados. Quando o regime mudou, esta gente foi alvo de esquecimento, desprezo e mesmo ostracismo. A um sofrimento indizível, o combate onde se pode morrer de um momento para o outro, seguiu-se um sofrimento inefável, a morte lenta na pobreza, na dor e na impotência. A cegueira ideológica à esquerda nunca se preocupou com eles e a cegueira ideológica à direita apenas os explorou oportunisticamente. E, apesar dos pesares, nos militares está depositada a arte da guerra sem a qual não teríamos sobrevivido como espécie e não nos teríamos civilizado.

    A cegueira ideológica, ou egocêntrica, é um combustível inesgotável para os nossos comentadores profissionais.

    reis
    Mas bastaria recordar os inventores atenienses da “política”, recordar Rousseau, recordar o 25 de Abril, para reconhecer que um exército não é mau nem bom, depende. Depende da comunidade.
    Explêndido texto , concordo de princípio a fim .
    Há quem ainda não evolucionou dos clichés estereotipados de leninistas e imperialistas. O mundo é amplo, pula e afortunadamente muda tanto nas pessoas como nas opiniões. O problema da olhada de Louça tem o seu paradigma na Espanha, na que , por causas varias, muitos ainda misturam alhos com bugalhos o falarem de uniformados.

    domingo, 24 de abril de 2016

    Castelhano, a língua de Camões

    No blog Aspirina b, o Valupi cita um texto provocador de Fernando Venâncio, antiguo colaborador do blog, sob um artigo escrito  no jornal   Público com o título de  O português como língua de Camões é um mito. 


    Abençoada iconoclastia do desassombro.


    O Fernando Venâncio honrou-nos com a sua presença durante dois anos, de 2006 a 2008. E em boa parte a sobrevivência deste blogue a ele se deve, pois ficou por cá aquando da grande debandada da maior parte dos fundadores e autores ocorrida em meados de 2006, ainda não se tinha sequer completado um ano de existência. Também por ele vieram aqui escrever Daniel de Sá, Jorge Carvalheira, José do Carmo Francisco e Soledade Martinho Costa, cada um marcando fases e aspectos desta coisa bizarra e periclitante chamada blogue colectivo.
    As diferentes metamorfoses ocorridas sob a égide Aspirina B ao longo de 10 anos dão a ver, para quem delas tiver memória, conteúdos e estilos estupendamente diversos. Seres de raças diferentes calhando serem postos lado a lado. O resultado de este ser um barco à deriva, feliz da vida por não ter um mapa a impedir as surpresas da cósmica sorte. O destino distante ou próximo, todavia, será ir ao fundo, como convém num conto de aventuras.
    Pois o nosso Fernando reapareceu na ribalta mediática graças a uma investigação que ficará para a História: O português como língua de Camões é um mito
    Abençoada iconoclastia do desassombr

    Dos comentarios colamos o do autor de este blog e no aspirinab "reis". 

    1. A teoría de F.V. , com todo o meu respeito e aminha pouca sabedoria do tema, é racional, lógica e bem fundamentada. Isso não faz mais pequeno nem o mito de Camões nem da lingua portuguesa. Porque Camões escreveu em português, no português culto da época, na lingua desenvolvida e estável do reino. No entanto as línguas são fruto da história, da política e tantos factores sociais que sería longo dizer. Só pensemos na influëncia do inglês nas nossas linguas nos nossos días.
      No português de hoje há muitos castelhanismos,que por vezes assombram a um galego, e que como bem di F.V. são chegados o português na época da dinastía filipina. Época na qual os escritores portugueses puxavam por escrever em castelhano ou misturar muitos termos en castelhano que lhes proporcionava certa imagen de modernidade com o poder e assim ficaram. Camões é homem do seu tempo como é Pessoa que moderniza e vigoriça a lingua e não tem olhada para a literatura espanhola. Eram outros tempos.
      Se engadimos que Camões era de origem galega, que seu pai lutou como muitos galegos cos reis de Portugal nas guerras comtra reis castelhanos, e que fuxiu para Portugal e que se supõe que ser o pae, duma aldeia perto de Vigo chamada Camoes e que o apelido Camoeiras é comum na Galiza,pode ser que alguém sofra no seu mundo mitológico, mas sería para estudar. Embora tudo isso faria mais grande a Camões como grande português de sempre.
      E bom revisar os mitos e os feitos históricos narrados de formas muito diferentemente interesadas o longo dos séculos. Se fosse certo que Felipe II da Espanha, na dinastía filipina, no seu afã de procurar uma capital para o reino gostava e defendía que devía ser Lisboa a capital pela sua situação marítima atlántica estratégica para o comercio, a guerra e o controlo da América coloniçada, a sua centralidade e o sentido de união dos dois reinos . Assim podíamos pensar doutra maneira do mito negativo de Felipe II respeito a Portugal. Além de ser Felipe II filho duma grande portuguesa, falava português e sempre esteve muito unido a mãe e sem dúvida a sua costela portuguesa tinha influéncia nessa decisão. Finalmente decidiu-se por Madrid, como bem sabemos.
      A teoría de F.V. ajuda a conhecer e se calhar a viver sem mitos na historia para compreender na melhor realidade os proprios mitos

    domingo, 29 de novembro de 2015

    O ASPIRINA B CUMPRE DEZ ANOS.



    10 anitos de iniciação à aprendizagem


    Convencionou-se que o dia 25 de Novembro seria a data da fundação do Aspirina B, embora a primeira publicação tenha ocorrido dois dias antes. Em 2005, ano do lançamento, era o Luis Rainha quem regia a orquestra, tendo partido dele a ideia de criar este pardieiro. Talvez tenha partido dele, igualmente, a colagem ao 25 de Novembro, por oportunidade e subtexto. Se alguma vez falámos sobre isso, já o esqueci. O elenco inicial era retintamente esquerdolas, versão agitprop, daí a eventual graçola.
    1. Que momentos tão lindos podem surgir na blogosfera. As vezes vale a pena. Sinto as palavras do   "reis" como se fossem minhas.  

    2. E eu venho de outro cantinho, aquí por acasso aparecí, fiquei, e aquí gratos momentos passei.
      Digo com emoção pela boa gente que sempre encontrei e agradecido pelo muito que aprendí e aprendo. Foi boa sorte andar por aquí, abriu-me um caminho novo e ajudou-me a namorar-me da lingua portuguesa e ajudou-me a sentir-me mais perto de quem tenho em grande estima, a patria portuguesa.
      Se por aquí ficamos sem duvida é pelo constante trabalho e os magníficos comentarios dos que labouram día a día esta seara.
      Agradeço o patrão da barca, Valupi, e a todos os colaboradores e comentadores.
      Que venham mais cinco, ( ou mais dez)
    3. Queridos amigos, a vossa generosidade e simpatia merece uma estátua. Desejo-vos as maiores felicidades e a fruição plena da vossa liberdade.
      E viva o Al Gore, que foi quem inventou a Internet.
    4. 1 dezembro de 2005
      Um tal Valupi contestava desta forma tão bela a um comentario dum tal Fernando Venâncio.
      ” O Fernando, …….
      Olha, eu é que conto com a tua escrita, seja aqui ou ali. Tens um estilo de um apuro estético que fascina, melodia gráfica para olhos que saibam ouvir. E a alma que habita no corpo das tuas palavras tem espaço. Largo, vasto espaço interior. Que paisagens guardas por detrás dos altos muros com que te sonhas, ó Fernando? “
    5. reis, e esse Fernando Venâncio é o português mais amigo, e até mais amante, da Galiza que conheci – quiçá, que existe…
      Muito obrigado por essa saborosa recordação que trouxeste e grande abraço
    6. Como galego na parte que me toca, agradeço e é um orgulho sentir como galego o F.V. , grande sabio e escritor.
      Grande abraço.
    7. serviço público.
      obrigado. Acho que perdí coisas bem interesantes que houve antes de chegar eu o aspirina.
      “No regresso, o Fernando partilhava o seu amor pela Galiza, pelos galegos e por essa Língua nossa. Eu, ao volante, agradecia aos deuses da Internet pela graça daquele momento e daquele dia”