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venres, 12 de xuño de 2026

Lendas da minha aldeia. O enterro.

 

Quando chegou o momento entre saloucos, rezos, choros e berros, o cadaleito saiu da casa do defunto, e alí diante da casa a caixa apoiada en catro cadeiras foi colocada entre as vozes a coro de seis curas que em latim estam a dar o responso correspondente. Dali levamô-lo a pequena capela do povo, onde se lhe rezamos outro responso e orações. De seguido organizou-se a comitiva para irmos já para o cemetério de Baltar. Os homes que sustentavam a caixa o ombreiro som relevados  por outros vicinhos, e entre todos os poucos vam indo.  Nós imos diante do cadaleito abrindo passo. O caminho agora e costa abaixo e como  nos é  novidosso, imos distraídos coa paisagem. Em quanto a vista me da vou olhando para as brancas penedas que protegem a mina.  Uma parada, já no lavradio  de Baltar, na altura da “Fonte de  Míro”. Já o fondo ve-se o barrio de Carreiracova a entrada em Baltar. Pertinho de onde parámos, há duas searas que estam a ser ceifadas, numa  um  rancho,que polo sotaque, é portugués, na outra  seitureiros da Saceda,  a segúm um comentario do Nestor. Ao  presentir-nos param nos seus trabalhos, tiram os homes boinas e chapeus, as mulheres colocam o pano de cabeça e permanecem todos olhando-nos em sinal respeitosa. Há um instante de  emoção. Agora os vecinhos do morto  solicitam tres responsos como  despedida. Não forom  responsos moi longos, se calhar seriam dos de cem pesetas, pois temos estado noutros, de moito prestígio,  onde tem habido responsos até  de quinientas.Tal vez aquela gente humilde não lhe importava tanto como fosse o responso, senão que ali o seu amigo se despedisse da terra coa que estava embrulhada a sua historia. Corredoiras, paredes, touzas, prados,todos parte  da sua existencia. Todos choravam ali naquele promontório. A viúva e as mulheres davam os  últimos berros de dor e mandavam-lhe recordos pros seus mortos. Parecia naquele instante que sobrabam os curas, o serem os labregos e a terra a berrar juntos polo amigo. Não esperavam o cemitério onde estariam cohibidos ante a presença de Deus e o cura, não,  aquí eles falam co morto, beijam a caixa , dizem-lhe cousas da labrança, estão aquí no meio do monte, neste caminho velho  polo que tantas vezes o morto e os seus antepassados passarom.

 Despois continuamos até o ceméterio. Ali na entrada, damos-lhe as últimas  preces e responsos que lhe corrrespondem. Nós e os curas, agás dom José, abandonamos o lugar, pois o cadaleito agora vai para dentro a encontrar-se co senhor Tomás, que está  à espera de que seja colocado no  buraco que ele ontem abriu e que dentro de pouco vai tapar coa mesma terra ainda fresca, para assim dar-lhe sepultúra.  

mércores, 6 de maio de 2026

O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro. III

 

                                                                                 1957

                  O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro.  

...../Despois de conversas vanais e gerais sobre a paisagem, as costumes e outras  curiosidades, o senhor Miguel Morgado, tirando de empatía, façia-me perguntas tais   como era a vida na Academia Militar, que se estudava, como era o trato, que afições tinha eu, se me divertia também numa cidade coma Zaragoza, que ele não conhecia e quería saber como era. Também falamos de como era  vida em  Celanova, falamos um bocado da figura de são  Rosendo e o mosteiro. Despois ele passou a falar-me da terra dos mixtos onde estavamos nesse momento, que origem tinha e porqué a estas gentes chamam-lhe os dos mixtos e deu-me uma dicas do que fora  a historia do Couto Mixto. Falamos do tempo tão caluroso de este verão, da Gardería Forestal do Estado que começa a plantar de pinheiros os montes e da moito trabalho as gentes da labrança quando já  acabam as épocas de sementeiras e colheitas, ainda que nalguns lugares parece que tanto pinheiro vai perjudicar a  moita ganderia de ovelhas e cabras. Enfim um pouco de todo.

Ainda  no meio das conversas tão agradavéis do senhor Miguel Morgado, sem dar-nos conta demos cabo duma boa comida feita de arroz com coelho e uns doces de sobremesa, todo acompanhado dum vinho verde do Porto, uns copos de aguardente velha e café.

Despois fum invitado a sentar-me num dos sofás e o meu lado sentou-se o senhor Miguel. O fondo a vista deixava-se levar polas veigas de Tosende e Meaus até chegar a Sampaio e as montanhas de mais alá que albergavam  os povos de São Martinho e Sabucedo. No inicio das  veigas via-travessar um menino   rio Salas  que ia escorregando entre  pequenas pontes de paso e dous pequenos moinhos que por aquí chamam azenhas.

O senhor Miguel acendeu um charuto e invitou-me a outro que rexeitei, pois não tinha a costume de fumar charutos, ainda que eu para acompanhâ-lo tirei da minha bolsa um cigarro  de tabaco rubio americanom Winstom. O meu anfitrião era, sem dúvida, um bom acolhedor, e estava acostumado a recever e convidar a gentes com  boas refeições.Comigo pronto   conseguiu um ambente cálido e de confiança. Era destas pessoas que precissam de descontrair o seu invitado, sabê-lo sentir-se cómodo, escoitâ-lo até façê-lo a persoa importante e  protagonista do encontro de tal maneira que ele parecia desaparecer do convivio e fazia do invitado a estrela que reluz. Sabia escutar e dar nobreza e ênfase o invitado. Parecia ter  moita experiência.

Embora eu seguía esperando um troco na nossa conversa, algo  importante tinha de chegar em qualquer momento, pois isso era o motivo da minha visita. E este momento  chegou:

—Caro amigo Manuel, querido tenente. Trouxe-no aquí para dar-lhe informação sobre a sua vida.Informação que você não conhece. Tal vez se incomode ou não  lhe beneficie o conhecê-la, mas como já lhe disse na  minha carta eu tenho que cumprir coa promessa feita.

—O seu pai biolóxico foi o meu amigo Manuel Folgoso Quintana. Ele morreu apenas há dous anos perto de aquí na aldeia de Pitões das Junas, moi doente no último ano por uma enfermidade pulmonar. A sua mãe biolóxica foi assassinada apenas començar a guerra, quando tentava  na sua fugida passar para Portugal dende o povo de Hermisende, nas portelas do Padornelo,  lá na Seabra, em Zamora. Eu a sua mãe não a  conhecim pero fui conhecedor da sua morte e dos companheiros que a acompanhavam na sua fugida. Todos galegos da provincia de Ourense que encontrarom na sua fugida a morte. Eu fui quem trouxe a noticia o seu pai que não foi enterado da sua morte e seguía confiante em encontrar-se com ela.

—Eu som de Zamora, das contornas de Aliste, daquela era mestre rural e segum començou a guerra civil um grupo duma cénturia da Falange vinha para matar-me e eu avisado a tempo puidem escapar prá  Portugal e aparecim em Montalegre, moi cerca de aquí e alí contactei co guerrilheiro mais intrépido da raia o “ Quintairos”. Ele foi quem me deu o apoio que precissava quando pedi ajuda os fugidos. Contactarom-me com ele e ajudou-me junto cos seus companheiros.  Todos tinhamos algún alcume para identificar-nos, ele elegiu ese nomem como homenagem e recordo da sua aldeia mai. Eu era o “zamorano”.

O seu pai morreu fai agora  apenas  dous anos. A pouco de  você ingresar  na Academia militar, ele ficou moi doente com uma infermidade pulmonar contraída, seguramente, nos duros anos de fugida de andar a  dormir nos montes, friages, molhaduras, fame, etc. Ele sabia todo sobre a sua vida, ele viviu as suas experiências como se as vivisse ele. Eu era o seu enlace e informante. Eu tinha os meus informadores sobre você. E nos últimos anos eu consegui travar contacto co seu tío para conseguir um encontro entre você e ele, agora que já os tempos entre peseguidores e fugidos  estão calmos.Até de agora todo isso era moi perigoso tanto para você como para o seu tio, e ele não quería por nada do mundo ser um travão na sua vida, nos seus estudos e na sua vida militar. Tinha uma ilusão enorme por  poder falar com você, embora não pudo ser, o mal  avançou moito mais do que pensávamos e morreu sem poder cumprir ese último desejo. No entanto morreu  pensando em você e chorava de alegría e emoção o saber de todo o que conseguiu. El era a solidaridade total, a loita polos demais, a ajuda generosa e o home mais trabalhador e honesto que conheci. Estava moi orgulhoso do seu filho. E estava agradeçido o seu irmão, o seu tio, que foi tão bom pai nestes anos. Já lhe disse que tentou e teimava por poder contactar  com voçê e co seu irmão, no obstante eu, que conhecia a situação, sempre lhe dicia que era moi arriscado. Até de agora o governo que ganhou a guerra anduvo imparável contra os poucos guerrilheiros que ficavam no interior da Galiza.  Até 1947 faz nove anos tinhamos moita actividade ainda na nossa zona aquí na fronteira. Mantivemos os comandos e a nossa organização logística e operativa. Despois já estavamos cansos e a nossa loita já não tinha futuro, ainda mais a guerrilha antifranquista do exilio e os que ainda estavam no monte, também se disolveu. O franquismo está mais forte ca nunca, tivemos uma janela de ilusão aberta, coa vitoria dos aliados no abril de 1945, embora foi uma decepção de que houvesse um cambio e reconciliação em Espanha, e doze anos despois Franco está mais asentado ca nunca no poder e ainda moitos dos republicanos ou contrarios o Régime  estão em busca e captura. Dende que Franco foi apoiado polos Estados Unidos no ano 1952 esto empezou a cambiar ainda mais para pior, pois os americanos vem em Franco um elemento importante na sua  loita  mundial nesta guerra fría. Estou vai para adiante e como sabe faz dous anos Espanha entro una ONU e até de agora as potencias europeias rejeitavam o Régime, mas já todo mudou e agora Espanha está aceite como um socio europeu e fala-se de que se va abrir emigração para Europa para poder trabalhar a nossa gente. Assím como pode vêr nós já rematamos o nosso percurso, só desejamos que a gente viva o melhor posível,  seja co Régime que for. Eu que fui um republicano activo e entusiasta hoje estou já céptico de todo..../

martes, 5 de maio de 2026

O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro. II

                                                                        1957

                                 O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro.  

 

..../ Os poucos días de obter o grado  de Tenente da Garda civil no mês de Julho de 1957 estava de férias na casa familiar em Celanova. Naquele verão na comarca foi conhecido o meu sucesso e estendeu-se nos faladoiros o meu nome. Soubesse  quem era eu, de que lugar exacto vinha a ser, de que familias era, e esas cousas, ou seja dito coa modestia do caso, fixen-me famoso. Também,  ajudou, o publicar o jornal “la Región” de Ourense a notícia, ao  tempo que engadia  folgar-se  e congratular-se  por   terem como vecinho da provincia de Ourense    um oficial tão jovem com um futuro prometedor. Impulsado, achava eu,  pela fama que eu tinha nesse momento, recivi uma carta de felicitação duma persoa que dizia chamar-se Miguel Morgado Avedillo, residente na localidade de Entrimo. O senhor queria felicitar-me polo resultado feliz alcançado, e dizia folgar-se moito por mim e a minha familia. Feitas as presentações, engadiu  desejar  moito ter um encontro comigo. Tinha certa documentação e informação  que gostaría  partilhar-me. Justificava  como  motivo  del tal encontro  uma  promessa feita a uma persoa cercana a mim. No obstante sería precisso guardarmos um  sigilio total do encontro, todo devia ficar  entre nós. Só ele e eu estaríamos na reunião, e entre ele y eu ficaria o segredo. Voltou-me a engadir que tinha o sagrado deber de cumprir o encargo feito por um amigo seu, moi querido,  que antes de morrer  deixara-lhe a encomenda de  encontrar-me. Agregava, como petição final, que se não me importava a ele gustaría-lhe fazer o encontro na aldeia de Meaus, no Couto Mixto, no Val de Salas, pertecente o  concelho de Baltar ainda que moi próximo a Calvos de Randím. O motivo do lugar elegido era simplesmente por ter  neste lugar, ele,  uma casa propria na qual  estava asegurada a nossa reserva e discrecião; além disso, polo dito motivo de manter o maior sigilo,  sugeria ser o  melhor dia para o encontro  o 25 de Julho, pois era feriado nacional e o mesmo tempo haveria  festas patronais na aldeia próxima de Santiago, incluso no propio Calvos, por tanto estava asegurado o rebumbio, a algazarra  e o movimiento de gentes dum lado para o outro polos lugares da zona, e sería um ambente adequado  para evitarmos  suspeitas e inquisições dos vecinhos, dos  curiosos e os indiscretos. Sugeria-me, pois, se for posível  deslocar-me  de automóvel até Calvos dende Celanova  e despois alí dirigir-me o paço dos Tejada e  perguntar por “O Lameiro” e dizer-lhe que vai de parte do senhor Miguel  Morgado e ele lhe proporcionara  uma cabalo  e o acompanha-lo-á até  a casa de Meaus. Como é evidente fiquei moi intrigado pola carta recevida. Presentava-se uma aventurinha moi atractiva para um jovem tenente que já se sentía inquieto, excitado  e com moita imaginação. Quem seria capaz de  ficar quieto e  sem fazer nada?. A quem não lhe entra o desassossego, a curiosidade, por desvendar o mistério, ainda se  intuir posíveis  riscos ou enganos?. E se realmente todo fosse uma armadilha para façer-me mal? Pero quem seria capaz de tal, se não tenho inimigos e som um tenente da Garda Civil, seria posível que alguém fosse capaz de tamanha burrice?.

A carta ficou no meu íntimo segredo e os meus miolos  rilhavam  nos pros e contras daquilo. O misterio estava no ar e eu tinha de desfazer  aquel novelo. Arriscar para saber ou ficar quieto e pasado o tempo lamentar-se?. Eis a questão.  Seja qual for a decissão antes precissava falar com algúem daquilo. Mas só havia uma persoa coa que poder falar do tema.E era o meu pai, um Garda civil já na situação de reserva e ocupado em pequenas  labouras de horta.   

Ensinei-lhe a carta. Leu-na com moita atenção. Pujo cara de preocupação. Sentou-se, pensou e com voz calma dixo-me:

—Vai ser uma cousa moi persoal. Eu não faço nem ideia de quem pode ser ese homem, paresce serio e preparado polo tom da carta. Se queremos, poderiamos  informar-nos fácilmente de quem é, eu posso investigar algo no posto de Celanova, conheço varios gardas que estiverom destinhados em Entrimo. No obstante, sabes que che digo, canto mais segredo seja todo, moito melhor para ti.A minha intuição diz-me  não pressentir nenhuma má treta  ou perigo para ti.Intuio que não. Acho, será uma cousa que ele che queira dizer só a ti. Vai lá, es um homem jovem, nada se che pôe hoje por diante. No obstante uma cousa importante che recomendo: Mantém o segredo do que che diga, e fala comigo quando voltares; não contes nada a ninguém, nem sequer a tua mãe. Recorda,  só a mim.

E já quase parecia ter rematado o seu conselho e agregou

—Outra cousa mais che recomendo: Pensa que tens uma carreira  militar por diante e não tem porque haver nada que cha tronce ou te  faça dano. Tens uma imagen que dar e parecer, formas parte dum estamento, como bem melhor ca mim sabes,  que tem moito controlo do que fazem e pensam as persoas do Corpo. Quer se queira quer não aquí todo se sabe. Entras num terreo moi escorregadiço, estás empeçando a tua carreira pero entras como um cordeiro num territorio de lobos. Chegaras a ter  moitos amigos, asegúrate sejam bons mas vela-te moito dos indiferentes e equidistantes, pois dos enemigos declarados é mais fácil esconder-se, porque já os conhecemos. Recorda isto./.....