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martes, 22 de setembro de 2026

O manuscrito do capitám: 1965. XULHO. A patria é a infância.

 

    

.....Nestes días Madrid é um forno, fai um calor abafante. Eu acostumo a madrugar para aproveitar um pouco o fresco do amencer porque no  resto do día fai-se  o trabalho com lentidão, e tudo parece mais maçado. Este sol meseteiro invita a sestear. Tenho ganhas de ir a Celanova coa familia e dar umas voltas por Ourense. Tenho saudades galegas, preciso respirar a humidade térrea, e desfrutar os amenceres frescos e a alentidão do solpor nestes dias longos do ano. Sim, a patria é a ianfància. 

Pressinto, que mais pronto que tarde,   vou  ir dar uma volta por alá. Motivos profesionais.

Os días aquí passam, de repente, de aborrecidos a trepidantes. No Servizo de Informaçao numca podes dizer o que vas fazer amanhã. Os días estão agendados, embora os aconteceres não.  Agora tudo parece andar tranquilo. Rutina. Nos últimos meses houve que dar muitos “Informes”  sobre os movementos na Universidade das organizações comunistas, concretamente a chamada UJCE, “Unión de juventudes comunistas de España”. Ainda que os  jornais nada dizem o respeito, na rua andam a fazer moito  barulho e isso preocupa as altas esferas do poder e então os jefes pedem resultados e explicações.  De momento andam a levedar coas suas asambleas clandestinas  e co reparto de propaganda. Pararom cos peches de aulas e sentadas nos campus. É evidente que estão a medrar em  organização e em militantes, tal como manifestam os informes da gente que temos inflitrada. Eu já alertei de que são sem dúvida um problema futuro, por varias razões, uma delas e que moitos dos futuros quadros dirigentes  do país estão a recever formação e informação moi contraria os ideais do “Movimiento”, e iso presenta um futuro cambio político que ainda que não parece vislumbrar-se, algúm dia chegará. A universidade em Madrid está moi revoltada, aquí esta-se a dar  a batalha contra o Regime. É uma mecha que está inzando de candeias outras universidades. É um campo moi perigoso para o Regime. Entre os dirigentes do Movimento há  moita asneira dirixente e não vem, e ainda pior é que não há gente com preparação suficinte para encarar estes problemas inteligentemente, eles creem nos  paus, malheiras e detenciões. Despois da expulsão de Aranguren, Tierno e Garcia Calvo como profesores, por exigirem o dereito de manifestação, mais bem parece que se perdeu o medo. O nosos axentes tenhem moito trabalho em quanto a informação que eu despois tenho de clasificar  e sintetizar e remitir os meus jefes. Eu, bem acompanho os meus informes com  sugerencias que podem valer para aminorar a influencia marxista, no entanto ninguém sabe como atalhar um assunto que pula e avança e que só terá como remate um cambio político num futuro não moi lonxano. Agora coas férias as asambleias e os disturbios pararom, eu aproveito para sintetizar todos os informes e com calma.

Também, ainda que não é do me campo de trabalho, estou a ouvir que está emergendo moito  o movemento sindical clandestino. Estes andam de mãos dadas cos estudantes e  são os mesmos activistas os que trabalham  tanto num camo como outro. Nos dous casos são gente joven e moi activa. Sempre está detrás o Partido Comunista que move gente dum lado para o outro. São duros, tabalhadores e arriscados. Eu vejo que são gente que se cresce na clandestinidade e manexam moi bem as técnicas do controlo das masas em geral.

     Em quanto o movemento sindical já vi que há informes do noso servizo de Informação que recomenda que se debe modernizar a lei sindical do “Movimiento”, que tal vez esteja já obsoleta para fazer frente o sindicalismo clandestino.   

     O futuro do Régime e de Espanha pasa por o controlo que as camadas dos chamados tecnócratas, do Opus, tenham do governo. A outra posibilidade é o meu paisano Fraga Iribarne. Fraga é listo e ambicioso. Tem  ideias modernas além dum grande ego político. Ele sería um verdadeiro renovador ou actualizador do Regime para os novos tempos. Franco sabe-o e confía nele, porém os falangistas, descerebrados e apresebrados em geral, exercem a vixilancia e pureza das ideias e não permitem evoluir. Franco,  a través de Carrero, confia moito no Opus e especialmente en Lopez Rodó. Estes são os que podem conducir a Espanha a modernidade política e  económica. Franco tem que andar a fazer equilibrios  na procura da harmonia e o contrapesso para evitar os   falangistas tolos saltarem a ciscar  discursos morais de autenticidade de ideias ancladas na victoria da guerra. Eles não dam deixa-do este discurso. Por sorote a  economía está já em maus do Opus, dende o Banco de Espanha até todos os quadros económicos. A falange vive no populismo e na pura asneira. Quando tiverom responsabilidades económicas subiron os salarios sem mais um oito por cento criando uma inflação que por pouco funde e deixa a rasca a nação. Os tecnócratas falarom com Franco e derom-lhe conta da situação. Esta gente tem que estar só para decorar o sistema e fazer discursos delirantes para conmemorar historias mitológicas que os mais fieis precisam de vez em quando. Sem dúvida se não fosse a figura de Franco que é respeitado  e temido, por todos os bandos, acho que o equilibrio sería moi difícil e tudo isto saltaría polo ar.

     Ontem chegou um mensagem da Pide portuguesa por vía confidencial. O operador pasou-lho directamente o Coronel quem  me chamou e me dixo que tinhamos tema cos portugueses. Primeiro a creação do movemento Ibérico de libertaçao o chamado DRIL; despois o  secuestro do barco Santa Maria, cheio de ciidadão americanos,  por parte deste movemento. Recentemente   o assassinato  do general Humberto Delgado em Badajoz por parte da mesma PIDE. Esta gente anda moi alporiçada, querem que nos movamos mais. E aqui a gente está por calar e que não se sepa nada. Para isso se fixo o Pacto Ibérico, recentemente, entre Franco e Salazar.

Em resumo, por cousas da vida,  receve a encomenda do análise e controlo das informações correspondentes a estes  asuntos. Como según o meu jefe o trabalho relacionado coa juventude e universidade apenas tinha carga de trabalho e importancia podía adicar-me bem estes outros asuntos dos portugueses que o fim e o cabo tenhem uma importancia relativa. Assim desta maneira, entre outros, chegarom até mim os nomes de José Velo, um tipo de Celanova, Sotomayor, um militar da Armada da república, também galego. E os portugueses  maior Galvão, e por suposto o general Humberto Delgado. 

 Seja como for,  estamos em maus de indocumentados, até que esta geração de políticos e militares  deixem a dirigencia, pouco podemos esperar. Estes alféreces provisionais que pelo simples feito de ser uns entusiastas loitadores numa guerra que ganharom, e que empurrados polos seus colegas da camisa azul medrarom no poder e na liderança dos principais orgãos de decisão, não dam mais de si, esto já fora do mundo real e a sua preparação para actualidade é moi duvidosa. Nem estão preparados para comandar qualquer posto de dirigencia que exija certa preparação.Estão desfasados da realidade, sobra-lhes entusiasmo e berro mitineiro e estão faltos de modernidade e adaptação o mundo que está a chegar.

O mensagem por telex codificado em criptografía ainda não fora descifrado, mas o meu Coronel sabia  que poucas vezes  os portugueses se punham em contacto, pois  são moi reservados na colaboração e nós também com eles. Ainda que pareça que temos governos amigos, a verdade e que não é assim. Receiam moito de nós, tal vez a nossa arrogancia e o mito do medo secular a invasão lhes leve a afastar-se de nós. A verdade é que e um tema interesante para contar. Como galego e da zona de fronteira tenho moito curiosidade por Portugal  sobre todo despois de istes  anos de colaboração policial que me permeteu viaxar a Lisboa, Porto e outros lugares de Portugal e ter contacto aquí em Madrid com alguns agentes portugueses. Estes contactos ajudarom-me a com um pouco de esforzó e aproveitando o meu galego desenvolver-me na lingua portuguesa tanto na fala como na escrita.   A verdade e que os nossos mundos  estão moi afastados, vivemos de costas viradas e coas fronteiras pechadas  dum e do outro lado. Assim que fica pendente quando houver tempo e calma uma escrita reflexiva sobre a minha experiencia portuguesa. Portugal está no tempo dos mitos viventes, o Sebastianismo, a etapa das descobertas, Aljubarrota. Espanha está no Imperio e nos tempos da grandeza e nesse imperio entra a asimilação de Portugal como apéndice pobre e limítrofe que engrandaría a Península baixo  o cerne castelhano.

 Sim a partires de 1961 co secuestro do barco Santa Marina pelo Chamado Directorio Ibérico de Liberação, formou-se uma célula de colaboração entre  os servizos secretos espanhois e os portugueses. O  nosso servizo da Garda Civil  foi o responsável do seguimento deste asuntos coa colaboração da PIDE portuguesa. Estava eu recem chegado o Serviço quando criamos a colaboração. Além do DRIL e do secuestro do barco Santa Marina, as aguas moverom-se quando en Fevreiro foi assassinado na comarca de Olivença o general e político portugués Humberto Da Silva Delgado. O general “sem medo” estava oposto a ditadura de Salazar, fugiu para Espanha e foi morto pela PIDE na mesma fronteira.

Humberto Delgado no ano 1933 foi participe no golpe de Estado que criou en Portugal o chamado Estado Novo baixo a ditadura do profesor Oliveira de  Salazar. Humberto foi simpatizante do nazismo e admirador de Hitler em contra de Oliveira de Salazar. Mais tarde fez uma notável carreira militar apoiado pelos británicos cos que travou confiança como representante de Portugal na negociações secretas  para instalarem as bases militares nas Açores. A pesares de ser um homem da parte ultra do Estado Novo a partires de 1950, chocou moito com Salazar e este relegou-no no que a cargos oficiais. Mais tarde compensou-no para se deslocar a embaixada em Estados Unidos e alí travou contato cos americanos e converteu-se em fervente demócrata. Não sabemos se realmente mudou no seu pensamento, que acho que sim, ou simplesmente era uma forma de ir comtra do seu enemigo persoal Salazar. Seja qual for a causa da sua mudança ideológica o caso é que o  futuro general se convertiu num home popular com liderança e alternativa o Goberno de Salazar. Presentou-se as eleições para Presidente da República em competencia co almirante Américo Thomas que foi o ganador oficial pois denunciou-se pelo país que houvera uma frande eleitoral e que o ganador fora o general Humberto Delgado. Delgado incitou os militares a revelarem-se contra a ditadura de Salazar e ante a perseguição política fugiu para o exílio no ano 1959. No ano 1964 foi enganhado pela PIDE, a través dum suposto militante portugués contra a ditadura, para ir a frontera en Badajoz. Alí foi primeiro sequestrado e despois assassinado por um agente da PIDE. A policía espanhola fijo uma investigação esclarecedora dos feitos sem acochar a realidade, ainda que deixava em mal lugar o governo amigo da ditadura portuguesa.

Despois da derrota electoral, voltamos o ano 1959, Delgado fundou o DRIL. Convencido de que a ditadura não se deixaria vencer por medios pacíficos formou o “Directorio Revolucionario Ibérico de Liberação”, cuja finalidade era usar a violencia terorista. No Directorio estavam integrados militares antisalazarista e antifranquistas de Portugal e Galiza. No ano 1961  apoiado pelo DRIL e liderado pelo general Botelho Moniz intentou-se um golpe de Estado que  fracasaria....

mércores, 9 de setembro de 2026

Lendas da minha aldeia. De como fomos uma tarde, em segredo, ver a velha mina do Wolfram.

 

......Tal como combinára-mos, a hora marcada, quatro da tarde,  juntamo-nos com moita ilusão e nervos na capela da Asunção. Dali arrancamos a caminhada cara a mina. Só imos uma parte dos “raposos: eu, o Rude, o Gonzalito e o Tonho.  Esta actuação clandestina e arriscada fai-nos sentir eufóricos, sem olvidar-nos do  André e o Eladio,  acompanhados do Antolas,  que andaram agora a sairem cara o rio caminho do  moinho da Ribeira.

 Tiramos cara Santantuinho para seguir o caminho que nos levara a mina de Gomariz. O tempo de sair, escoitamos o longe as campás da Igrexa pra anunciar a hora da catequese. Ali tinhamos que estar, no entanto vai ser a nossa coartada na fugida;

 apanhamos uma rodeira de carros abeirada a carbalhos e castinheiros que nesta hora que estamos, agadecemos bem;

 pouco a pouco imos chegando. Já levamos uma hora longa de caminho e isto já está a parecer  mais que cansativo. Saimos duma zona de tupidas matugueiras,e aparecemos no meio dum monte raso. Lá em frente vemô-la. Ali esta.

A velha mina de volfrâmio jaz abandonada desde há mais de quinze anos. O que  fora um formigueiro de homens, camiões e barracões, era agora um lugar silencioso e triste. Junto à entrada principal ainda se conservam os restos enferrujados das vagonetas e alguns carris semicobertos pela erva. Os barracões de madeira tinham perdido os telhados.As paredes aparecem comidas pela humidade. Aqui e acolá vem-se montões de escombreiras cobertas de toxos, giestas e silvas. A boca da galeria, negra e húmida, permanecia aberta como uma ferida na montanha. Da abóbada caíam gotas de água que formavam pequenos regueiros ferruginosos. Os vizinhos ainda lhe chamam «a mina», mas já quase ninguém se aventura  por  estes lugares.

—Olhai, isto deve ser o que o Nestor dizia que era  “o foxo do lobo”.

—Pois tenche fondura, rapá. Meca-jona sim que mete medo— falou o Rude.—Pois inda tinha que ser moito mais fondo daquela.

—Sabedes a historia—falou o Tonho—aquí havia antigamente um foxo de lobos e despois o fazerem a mina foi desfeito. Quando a mina deixou de funcionar aproveitarom esta excavación ampla e fonda para voltar a ter  aquí o foxo.

O Gonzalito, o que menos sabe da aldeia , pois ele vem de familia de vila e dada o senhorio, perguntou:

—Que é um foxo de lobos?.

Contestou o Tonho que ouvira todas estas historias do seu avô:

—Daquela havia moitos lobos  e faziam-lhe moito mal o gando e a gente, então juntavam-se toda aldeia, homes e mulheres,  metíam no fondo do foxo uma cabra ou ouvelha e despois iam fazendo uma batida dende o monte com berros, fachós e bulha coa intenção de provocarem o lobo  sair  dos seus acubilhos e guía-lo até aquí para que coa cobiça de comer o cebo caisse no fondo sem poder sair mais. Era uma forma de eliminar lobos, e havia foxos por todas as zonas de montanha.

—Pois tinha que ser um espetáculo ver toda a gente polo monte com esas lumieiras e fazendo bulha. Menudo divertimento. Vê-se que devia ser emocionante, e os lobos andariam espantados e temerossos. —rematou o Gonzalito.

—O Rude falou cheio de emoção, sinalando o material : Meca-jo-em-diola nenos, isto é uma maravilha. Que puidera vir todo iste material funcionando e o ambente de gente que havia aquí.

—Pois, o meu avô dixo-me, que  as melhores máquinas e a documentação, estão numa casa que antes era a oficina da mina que está a cargo de dom Sixto, por se ainda se volve a abrir a mina. —contestou o Tonho.

—Haver, vamos lá, então—falei eu  por cambiar de tema: —Tonhinho trouxeches a lanterna da tua casa?

—Sim eiqui está.

—Moi bem. Vai-nos ser moi necessaria pra olhar pro oscuro das covas e galerías.

— Bom pois vamos a distribuir-nos em línea e imos avançando todos a vez, cada um por um setor de cem metros mais ou menos,  e olhando-nos entre nós.  Recordai qualquer cousa pode ser interessante;

por eiqui passou e passa gente, contrabandistas e outros. Todo o mundo deixa algo: uma cabicha por exemplo pero não é o mesmo que seja dum tabaco barato a um caro,( os ricos fumam caro); um pano perdido; uma caixa de mixtos, uma ferramenta, pegadas de calçado e de cabalos etc. E se temos sorte poderemos descubrir algum contrabando. Em fim, temos ocasião de pesquisar e sairmos de dúvidas. Haja o que houver, já despois falaremos. Não olvidemos que o Carlos vinha por aquí as vezes. 

Pois venha, vamos lá.

Caminhamos um pouco e já berrou o Rude:

—Meca-jo-na puta, aquí há polo menos trinta cabichas o lado desta peneda. Eiqui não fai moito esteve gente e fumarom dabondo. É tabaco do barato, não tem filtro ningúm, parecem Peninsulares, nem Celtas parecem. E cheio de pegadas de zapatos, eiqui esta manhâ  ou onte a noite andiverom por eiqui, pois esta todo recente.

O Tonho também falou de ver pisadas de botas e pegadas de cavalarias. Eu também via rastro de terra movida e levantada como se arrastrassem caixas. Ficava claro que o lugar era bem visitado.

O Gonzalito azanou-me coa mau e dixo-me: —Manel vem ver isto.

Os dous juntos olhamo-nos e demos por feito que aquela aspa de cor azul pintada numa pedra grande do caminho, sinalava uma direção ou algo assim. Seguimos andando e a nossa esquerda já fora do nosso setor a cem metros a mesma sinal noutra pedra. Seguimos caminhando e o fondo intuia-se uma antiga galería tapada com uma anteira bem cortada e que na sua base tinha a mesma sinal da aspa azul.

O Gonzalito não era nunca de berrar, era frío e sabia manter a calma. Eu parecía bem mais nervoso que ele. O Rude e o Tonho inda não eram sabedores  do nosso e seguiam falando e contando o que iam vendo. Aquí uma cagada fresca, dizia o Rude, tanto pode ser de raposo como de lobo, aquí cotos de coelhos, esto parece pelo de raposa…..O Gonzalito sorriu e olhou-me e dixo-me:

—Manel, aquí nesta cova tem que haver algo do que buscamos. Imos ter éxito, vamos descubrir a causa do assassinato, já verás.........