1957
O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro.
Chamo-me Manuel Folgoso Quintana. Presento-vos estes pequenos escritos que estou a rematar, para deixar pegada duns recordos moi importantes e que eu tinha gardados ma minha gaveta. Acho tenhem importância para comprendére-des tanto a minha vida como o meu modo de ser. Trato de não olvidar os momentos ou experiências tão importantes que vivim no verão do ano 1957, despois de rematar o meu período académico para obter a recem graduação de Tenente. Hojé já som um Garda Civil co grado de Tenente.
Nascim em Quintairos, uma aldeia moi pequena da parróquia de Santiago de Amoroce do concelho de Celanova. O meu ano de nascimento, 1936, não foi um dos melhores da história. Passarom cousas daquela. Crescim no seio duma família ordenada, católica, como quase todas na altura.Vivim mergulhado entre o ambiente dum quartel da Garda Civil e uma vida de aldeia da postguerra. Criei-me, no que em Galiza se conhecem, com moito acerto, os anos da fame. Anos carentes de moitas cousas básicas materiais que hoje temos, aliás os meus recordos são alegres, não nos faltava nem amor nem felicidade nos anos que nos criamos. Os meus país eram Antonio Folgoso Pousa e Lurdes Quintana Carreira. Ele Garda Civil e ela ama de casa. A minha infância foi quase toda entre a vila de Celanova e a aldeia da que tinhamos a nossa procedencia familiar tanto paterna como materna. Alí em Quintairos, nossa pequena aldeia, estamos quase todos vinculados familiarmente uns cos outros como é o natural em qualquer aldeia galega. O meu pai estivo destinado nos postos da contorna, pertecentes a Companhia da Garda Civil de Celanova, prácticamante toda a sua carreira, excepto um ano que por ascenso a cabo foi destinado o posto de Baltar, um povo de fronteira perto de Ginzo da Limia. Isso foi, lá na altura de 1946.Tinha eu daquela apenas nove anos para dez. Despois voltou a Celanova e recem por idade passou a reserva despois de retirar-se no cargo de Sargento. Tivem uma infância feliz, como quase todos os nenos que conhecim. Bom estudante, os meus país internaron-me os dez anos no colégio dos Salesianos de Ourense para començar o bacharelato como era o habitual, já que em Celanova não havia nem há ainda centro de ensino para conseguir tirar o título de bacharel. A alternativa somente era a posibilidade de seguir na escola pública até os catorce anos para assim acadar o certificado de estudos primarios. Rematado o bacharelato e o correspondente exame de révalida no Instituto do Possío de Ourense, forom chegados os tempos de mudar o rumo da vida, pois a idade de decidir já chegara.Tomei a decisão que tinha pensada já nos últimos anos. Não iria a Universidade. A minha escolha clara era preparar-me para ingressar na Academia General Militar em Zaragoza. Queria ser militar de carreira e se for posível da Garda Civil. E assim foi, consegui o meu objetivo, ingressei e depois de quatro anos conseguím a graduação como oficial da Garda Civil co grado de Tenente. Esta professão era a que eu vira no meu entorno e que considerava, além da esquisita mitificação da pulha da vocação, como a via ideal para conseguir o trunfo social na vida. Pero não só era o logro persoal o motivante desta decisão, também significava moito para mim sentir o orgulho do meu pai o ver-me alcançar este nível que ele valorava moi bem, obviamente. Isto era para mim já uma satisfação imensa de por si. Era como devolver algo a quem com tanto sacrificio turrou de mim para esforçar-me e empenhou-se tanto na minha educação. É normal que toda a vida vendo e admirando os oficiais da Garda Civil tenta-se eu, ainda que fosse no meu magim, seguir o modelo admirado e propor-me algum dia ser um deles.
Como se pode ver, até aquí, seguindo um pensamento lógico qualquera pode pensar que na minha vida todo parece ser maravilhoso.Abofé, não se podia pedir mais, conseguir o que queres, sentir-te querido polos teus e ver o horizonte vital despejado. Tal vez, os asuntos do amor, cousa de pouco interés aquí e agora, andariam um pouco amuados e arrefriados. No obstante, esta Arcadia feliz pareceu um dia agitar-se e remerxer no meu mundo tão bem controlado. Tuvem noticias impactantes e marcantes as quais pareciam ser capaçes de esfarrapar esta harmonia vital e emocional. O caso é que não foi assim, por fortuna, todo o contrario, não foi nenhuma desgraça. Como contarei de seguido, mas bem, foi uma benção de vida, embora num primeiro impacto trocasse tanta felicidade por certa angúria e ansiedade.
Pode haver cousas da tua vida que estejam acochadas em algures, que tu mesmo não saibas da sua existência e que outros sepam mais de ti ca ti mesmo?. Não é o normal, mas pode ser.
Não se trata do que tu fizeras ou que por omisão não fizeras.Não, estou a falar de algo que tu não decidiches e que te atopas com ele e vai acompanhar-te no teu percurso vital. Em resumo, algo que, simplesmente existe, faz parte da tua vida ainda que tu não sabes que existe e tal vez nunca irás a sabe-lo. Ninguém te diz nada; som uma persoa respeitável; som um intocável a quem não se pode criticar ou prejudicar, som um venturoso e ditoso cidadão militar que vive numa sociedade na que valora-se como nenhuma o apogeu militar. Mas sempre há uma primeira ocasião para todo na vida e sempre haverá alguém que por razões insondáveis e inexplicáveis, rache e perturbe esse plácido entorno e viole o pacto tácito da gente dos teus lugares e da tua circunvizinhança.
Vamos pois a desvendar este introito tão rebuscado e misterioso...........