......Tal como combinára-mos, a hora marcada, quatro da tarde, juntamo-nos com moita ilusão e nervos na capela da Asunção. Dali arrancamos a caminhada cara a mina. Só imos uma parte dos “raposos: eu, o Rude, o Gonzalito e o Tonho. Esta actuação clandestina e arriscada fai-nos sentir eufóricos, sem olvidar-nos do André e o Eladio, acompanhados do Antolas, que andaram agora a sairem cara o rio caminho do moinho da Ribeira.
Tiramos cara Santantuinho para seguir o caminho que nos levara a mina de Gomariz. O tempo de sair, escoitamos o longe as campás da Igrexa pra anunciar a hora da catequese. Ali tinhamos que estar, no entanto vai ser a nossa coartada na fugida;
apanhamos uma rodeira de carros abeirada a carbalhos e castinheiros que nesta hora que estamos, agadecemos bem;
pouco a pouco imos chegando. Já levamos uma hora longa de caminho e isto já está a parecer mais que cansativo. Saimos duma zona de tupidas matugueiras,e aparecemos no meio dum monte raso. Lá em frente vemô-la. Ali esta.
A velha mina de volfrâmio jaz abandonada desde há mais de quinze anos. O que fora um formigueiro de homens, camiões e barracões, era agora um lugar silencioso e triste. Junto à entrada principal ainda se conservam os restos enferrujados das vagonetas e alguns carris semicobertos pela erva. Os barracões de madeira tinham perdido os telhados.As paredes aparecem comidas pela humidade. Aqui e acolá vem-se montões de escombreiras cobertas de toxos, giestas e silvas. A boca da galeria, negra e húmida, permanecia aberta como uma ferida na montanha. Da abóbada caíam gotas de água que formavam pequenos regueiros ferruginosos. Os vizinhos ainda lhe chamam «a mina», mas já quase ninguém se aventura por estes lugares.
—Olhai, isto deve ser o que o Nestor dizia que era “o foxo do lobo”.
—Pois tenche fondura, rapá. Meca-jona sim que mete medo— falou o Rude.—Pois inda tinha que ser moito mais fondo daquela.
—Sabedes a historia—falou o Tonho—aquí havia antigamente um foxo de lobos e despois o fazerem a mina foi desfeito. Quando a mina deixou de funcionar aproveitarom esta excavación ampla e fonda para voltar a ter aquí o foxo.
O Gonzalito, o que menos sabe da aldeia , pois ele vem de familia de vila e dada o senhorio, perguntou:
—Que é um foxo de lobos?.
Contestou o Tonho que ouvira todas estas historias do seu avô:
—Daquela havia moitos lobos e faziam-lhe moito mal o gando e a gente, então juntavam-se toda aldeia, homes e mulheres, metíam no fondo do foxo uma cabra ou ouvelha e despois iam fazendo uma batida dende o monte com berros, fachós e bulha coa intenção de provocarem o lobo sair dos seus acubilhos e guía-lo até aquí para que coa cobiça de comer o cebo caisse no fondo sem poder sair mais. Era uma forma de eliminar lobos, e havia foxos por todas as zonas de montanha.
—Pois tinha que ser um espetáculo ver toda a gente polo monte com esas lumieiras e fazendo bulha. Menudo divertimento. Vê-se que devia ser emocionante, e os lobos andariam espantados e temerossos. —rematou o Gonzalito.
—O Rude falou cheio de emoção, sinalando o material : Meca-jo-em-diola nenos, isto é uma maravilha. Que puidera vir todo iste material funcionando e o ambente de gente que havia aquí.
—Pois, o meu avô dixo-me, que as melhores máquinas e a documentação, estão numa casa que antes era a oficina da mina que está a cargo de dom Sixto, por se ainda se volve a abrir a mina. —contestou o Tonho.
—Haver, vamos lá, então—falei eu por cambiar de tema: —Tonhinho trouxeches a lanterna da tua casa?
—Sim eiqui está.
—Moi bem. Vai-nos ser moi necessaria pra olhar pro oscuro das covas e galerías.
— Bom pois vamos a distribuir-nos em línea e imos avançando todos a vez, cada um por um setor de cem metros mais ou menos, e olhando-nos entre nós. Recordai qualquer cousa pode ser interessante;
por eiqui passou e passa gente, contrabandistas e outros. Todo o mundo deixa algo: uma cabicha por exemplo pero não é o mesmo que seja dum tabaco barato a um caro,( os ricos fumam caro); um pano perdido; uma caixa de mixtos, uma ferramenta, pegadas de calçado e de cabalos etc. E se temos sorte poderemos descubrir algum contrabando. Em fim, temos ocasião de pesquisar e sairmos de dúvidas. Haja o que houver, já despois falaremos. Não olvidemos que o Carlos vinha por aquí as vezes.
Pois venha, vamos lá.
Caminhamos um pouco e já berrou o Rude:
—Meca-jo-na puta, aquí há polo menos trinta cabichas o lado desta peneda. Eiqui não fai moito esteve gente e fumarom dabondo. É tabaco do barato, não tem filtro ningúm, parecem Peninsulares, nem Celtas parecem. E cheio de pegadas de zapatos, eiqui esta manhâ ou onte a noite andiverom por eiqui, pois esta todo recente.
O Tonho também falou de ver pisadas de botas e pegadas de cavalarias. Eu também via rastro de terra movida e levantada como se arrastrassem caixas. Ficava claro que o lugar era bem visitado.
O Gonzalito azanou-me coa mau e dixo-me: —Manel vem ver isto.
Os dous juntos olhamo-nos e demos por feito que aquela aspa de cor azul pintada numa pedra grande do caminho, sinalava uma direção ou algo assim. Seguimos andando e a nossa esquerda já fora do nosso setor a cem metros a mesma sinal noutra pedra. Seguimos caminhando e o fondo intuia-se uma antiga galería tapada com uma anteira bem cortada e que na sua base tinha a mesma sinal da aspa azul.
O Gonzalito não era nunca de berrar, era frío e sabia manter a calma. Eu parecía bem mais nervoso que ele. O Rude e o Tonho inda não eram sabedores do nosso e seguiam falando e contando o que iam vendo. Aquí uma cagada fresca, dizia o Rude, tanto pode ser de raposo como de lobo, aquí cotos de coelhos, esto parece pelo de raposa…..O Gonzalito sorriu e olhou-me e dixo-me:
—Manel, aquí nesta cova tem que haver algo do que buscamos. Imos ter éxito, vamos descubrir a causa do assassinato, já verás.........