mércores, 9 de setembro de 2026

Lendas da minha aldeia. De como fomos uma tarde, em segredo, ver a velha mina do Wolfram.

 

......Tal como combinára-mos, a hora marcada, quatro da tarde,  juntamo-nos com moita ilusão e nervos na capela da Asunção. Dali arrancamos a caminhada cara a mina. Só imos uma parte dos “raposos: eu, o Rude, o Gonzalito e o Tonho.  Esta actuação clandestina e arriscada fai-nos sentir eufóricos, sem olvidar-nos do  André e o Eladio,  acompanhados do Antolas,  que andaram agora a sairem cara o rio caminho do  moinho da Ribeira.

 Tiramos cara Santantuinho para seguir o caminho que nos levara a mina de Gomariz. O tempo de sair, escoitamos o longe as campás da Igrexa pra anunciar a hora da catequese. Ali tinhamos que estar, no entanto vai ser a nossa coartada na fugida;

 apanhamos uma rodeira de carros abeirada a carbalhos e castinheiros que nesta hora que estamos, agadecemos bem;

 pouco a pouco imos chegando. Já levamos uma hora longa de caminho e isto já está a parecer  mais que cansativo. Saimos duma zona de tupidas matugueiras,e aparecemos no meio dum monte raso. Lá em frente vemô-la. Ali esta.

A velha mina de volfrâmio jaz abandonada desde há mais de quinze anos. O que  fora um formigueiro de homens, camiões e barracões, era agora um lugar silencioso e triste. Junto à entrada principal ainda se conservam os restos enferrujados das vagonetas e alguns carris semicobertos pela erva. Os barracões de madeira tinham perdido os telhados.As paredes aparecem comidas pela humidade. Aqui e acolá vem-se montões de escombreiras cobertas de toxos, giestas e silvas. A boca da galeria, negra e húmida, permanecia aberta como uma ferida na montanha. Da abóbada caíam gotas de água que formavam pequenos regueiros ferruginosos. Os vizinhos ainda lhe chamam «a mina», mas já quase ninguém se aventura  por  estes lugares.

—Olhai, isto deve ser o que o Nestor dizia que era  “o foxo do lobo”.

—Pois tenche fondura, rapá. Meca-jona sim que mete medo— falou o Rude.—Pois inda tinha que ser moito mais fondo daquela.

—Sabedes a historia—falou o Tonho—aquí havia antigamente um foxo de lobos e despois o fazerem a mina foi desfeito. Quando a mina deixou de funcionar aproveitarom esta excavación ampla e fonda para voltar a ter  aquí o foxo.

O Gonzalito, o que menos sabe da aldeia , pois ele vem de familia de vila e dada o senhorio, perguntou:

—Que é um foxo de lobos?.

Contestou o Tonho que ouvira todas estas historias do seu avô:

—Daquela havia moitos lobos  e faziam-lhe moito mal o gando e a gente, então juntavam-se toda aldeia, homes e mulheres,  metíam no fondo do foxo uma cabra ou ouvelha e despois iam fazendo uma batida dende o monte com berros, fachós e bulha coa intenção de provocarem o lobo  sair  dos seus acubilhos e guía-lo até aquí para que coa cobiça de comer o cebo caisse no fondo sem poder sair mais. Era uma forma de eliminar lobos, e havia foxos por todas as zonas de montanha.

—Pois tinha que ser um espetáculo ver toda a gente polo monte com esas lumieiras e fazendo bulha. Menudo divertimento. Vê-se que devia ser emocionante, e os lobos andariam espantados e temerossos. —rematou o Gonzalito.

—O Rude falou cheio de emoção, sinalando o material : Meca-jo-em-diola nenos, isto é uma maravilha. Que puidera vir todo iste material funcionando e o ambente de gente que havia aquí.

—Pois, o meu avô dixo-me, que  as melhores máquinas e a documentação, estão numa casa que antes era a oficina da mina que está a cargo de dom Sixto, por se ainda se volve a abrir a mina. —contestou o Tonho.

—Haver, vamos lá, então—falei eu  por cambiar de tema: —Tonhinho trouxeches a lanterna da tua casa?

—Sim eiqui está.

—Moi bem. Vai-nos ser moi necessaria pra olhar pro oscuro das covas e galerías.

— Bom pois vamos a distribuir-nos em línea e imos avançando todos a vez, cada um por um setor de cem metros mais ou menos,  e olhando-nos entre nós.  Recordai qualquer cousa pode ser interessante;

por eiqui passou e passa gente, contrabandistas e outros. Todo o mundo deixa algo: uma cabicha por exemplo pero não é o mesmo que seja dum tabaco barato a um caro,( os ricos fumam caro); um pano perdido; uma caixa de mixtos, uma ferramenta, pegadas de calçado e de cabalos etc. E se temos sorte poderemos descubrir algum contrabando. Em fim, temos ocasião de pesquisar e sairmos de dúvidas. Haja o que houver, já despois falaremos. Não olvidemos que o Carlos vinha por aquí as vezes. 

Pois venha, vamos lá.

Caminhamos um pouco e já berrou o Rude:

—Meca-jo-na puta, aquí há polo menos trinta cabichas o lado desta peneda. Eiqui não fai moito esteve gente e fumarom dabondo. É tabaco do barato, não tem filtro ningúm, parecem Peninsulares, nem Celtas parecem. E cheio de pegadas de zapatos, eiqui esta manhâ  ou onte a noite andiverom por eiqui, pois esta todo recente.

O Tonho também falou de ver pisadas de botas e pegadas de cavalarias. Eu também via rastro de terra movida e levantada como se arrastrassem caixas. Ficava claro que o lugar era bem visitado.

O Gonzalito azanou-me coa mau e dixo-me: —Manel vem ver isto.

Os dous juntos olhamo-nos e demos por feito que aquela aspa de cor azul pintada numa pedra grande do caminho, sinalava uma direção ou algo assim. Seguimos andando e a nossa esquerda já fora do nosso setor a cem metros a mesma sinal noutra pedra. Seguimos caminhando e o fondo intuia-se uma antiga galería tapada com uma anteira bem cortada e que na sua base tinha a mesma sinal da aspa azul.

O Gonzalito não era nunca de berrar, era frío e sabia manter a calma. Eu parecía bem mais nervoso que ele. O Rude e o Tonho inda não eram sabedores  do nosso e seguiam falando e contando o que iam vendo. Aquí uma cagada fresca, dizia o Rude, tanto pode ser de raposo como de lobo, aquí cotos de coelhos, esto parece pelo de raposa…..O Gonzalito sorriu e olhou-me e dixo-me:

—Manel, aquí nesta cova tem que haver algo do que buscamos. Imos ter éxito, vamos descubrir a causa do assassinato, já verás.........

mércores, 2 de setembro de 2026

Lendas da minha aldeia. O contrabando e o moinho.

 

.............—E ti,  que me contas do moinho da ribeira?.

—Uff, tenho moito que contar-che, ainda que não tão intrigante como o vosso. Bom, valeu a pena. Aprendim moito. O Pascual estivo só dende que chegamos; tinha encargados uns quantos sacos de grau pra moer e ninguém veu por ali. Entre o Eladio e eu dabamos-lhe conversa mentras o Antolas andava as troitas e pesquisando por toda parte para saber se havia alguma cousa interesante. Estava um pouco chispa e ainda meteu uns grolos de vinho estando nós ali. Seria por isso que estava falador. 

—Coitado, vive ali solitario. Nem ao povo vem de vez em quando. Afastado do mundo.

—Não penses, pois vai moita gente ali a moer, e uma moinhada pode botar uma, duas, ou mais  horas. E isso da-lhe companhia. Ele está acostumado, e gosta da soidade de viver lá naquele sitio tão bonito, cheio de auga, troitas, frutais, escondido num ribeiro manso do rio o pé da serra;

alguns dizem que quando vão mulheres soas para moer, algumas deixam-se  apalpar bem por ele e outros dizem que é um pouco maricalho e que gosta dos rapazes novinhos coma nós.

 Faladorias;já sabes. Sim, ele é de pouco falar coa gente; tranquilo,  parece todo dar-lhe igual. Moito do tempo está  um pouco bébado.

—Pois parece que che impressionou o moinheiro.

—Moito. Despois de contar-me a sua vida e as suas aventuras, qualquera ficaria comovido.

—Pois conta logo.

—Filho dum latoneiro ambulante, nasceu  em Penaverde por acaso. Dende neno co seu pai e a sua mãae percorreu todas as  aldeias da contorna e até algunas de Portugal. Quando chegavam a Baltar  acougavam quase um mês, faziam vida no forno da fonte e a gente era generossa com eles. Quando estalou a guerra ele era um moçote de dezasete para dazoito e já dominava o oficio do pai, que morreu dali a um ano. Ele seguiu um ano mais coidando da sua mãe enferma e indo dum lado para outro ganhando o seu pão. A guerra seguía mas ninguém reparou naquele latoneiro que não constava anotado em ningures. Morreu a sua mãe dali a pouco. Ouviu, que em qualquer momento alguém o apanharia para ser alistado; a Guardia civil já o conhecia e ele presentia que em qualquer momento ia ir o frente.  Então, adiantou-se e  tomou uma decisão: Fugir. Cruzou a fronteira e foi buscar vida em  Portugal.

—Que che parece a historia.

—Home, de novela. Pero imagino que ainda quedara o mais interesante, não.

—Pois sim, pero estuvem de  noite escrevendo nesta libreta todo o que me contou, para não olvidar-me. Toma,  vas lendo porque agora tenho que atender na casa. Moitas das cousas que me contou não as entendim, precisaríamos de alguém que nos explique. Ninguém nos falou da  guerra e os fugidos e esas cousas.

— Já me contarás que che parece.

Ah Manel, olha, temos que reunir-nos hoje sem falta, há moito do que falar, e ouvir de todos os companheiros a aventura na mina. A tua já escoitei. Adeus, até logo.Não te esqueças. 

Comecei a ler as notas escritas polo André :

“Fugiu, cando já a guerra levava dous anos.  Juntou-se com outros fugidos e foi acolhido polo grupo do guerrilheiro “o Quintairos”, que operava pola zona. Ele andava junto com ele para toda parte era um dos seus homens de confiança. Os guerrilheiros no queriam  incomodar moito nem a Guardia civil nem a GNR  para poderem ter mais liberdade para ajudar os fugidos. Tinham armas pero numca entrou em combate pois eles sabiam que entre uns e os outros exterminaría-nos de contado. Foi moi feliz nestes anos co Manuel Folgoso, “o Quintairos”, e tinham moito trabalho nos dous lados da fronteira para acolher fugidos ate que uns seguiám ruta em Portugal para fugir a outro país e outros deixavam passar tempo coa ideia de voltar a cruzar para Galiza. Tinham moitos colaboradores e casas para esconder-se e rutas e covas no monte e recibiam ajuda e comida,  armas e cartos,  seica dum inglés que era amigo do Quintairos e ajudava os fugidos. Percorreo moitos caminos dende Vinhais até Entrimo, incluso Castro Laboreiro, que seica estão moi longe de aquí. Ele conhece todos os sitios e as vezes facia passar-se por latoneiro  ou o que cadrase, e era uma vida divertida. Falou-me que na  zona de entrimo havia um guerrilheiro que lhe chamavam o Zamorano  que não andava fugido e vivía casado como um mais en Entrimo. Era a mão direita do Quintairos e dava-lhes moita ajuda naquela zona e noutras porque era comerciante e tinha camião e então andava dum lado pro outro com moita amizade cos Guardias Civis. O Pascual  não tinha familia nem nada e estava entregue para tudo o que figer  falta. Aquela era a sua familia.

O Quintairos pros Guardias e pros falangistas era um tipo misterioso que não sabiam de onde saira. Era moi escorridio e moi valente, ninguèm sabia quem era. Oficialmente fora fusilado no Furriolo, pero  escapou o pelotão de fuzilamentoentre na confusão da  escuridade da noite. Era respeitado e querido. Era mestre antes de fugir, e a ele ensinou-no a ler e a escrever e fazer contas.Orgulhoso ensionou-me a libreta na que apunta-va as moinhadas e as maquias correspondentesa e a ganância em farinha para o dono do moinho.

Contou-me que  se falava  que o ser apressado , “o Quintairos”, deixou um filho recem  o coidado do irmão e que agora ese filho é um alto cargo militar.

Rematada a guerra viveu entre Pitões e Salgueiro do negocio  do carbão. Numa feira em  Lobios um fulano reconheceu-no e foi-no denunciar a Guarda Civil. Foi presso, quatro anos por cárceres de varios sitios de Espanha. Libertado voltou a zona e como tinha amizade co moinheiro de Baltar deulhe este trabalho.

Só despois de explicar-lhe que nós queríamos saber como se movia o contrabando na raia, pois já estiveramos na mina, e disem-lhe nomes de contrabandistas e roteiros que já nos contara alguma gente, então foi quem de reconhecer que no seu moinho algo de mercancía se movia.  

Que o moinho era um sitio moi bom para contrabandear, pero que ele nada tem que ver com isso. Ainda que algumas vezes tinha ajudado em  algo os seus antigos colegas da guerrilha, já não tinha nada que ver com eles, e nunca lhes perguntou em que embrulhos andavam .

Que os Guardias a ele numca o molestam e venhem pouco polo moinho. Alguns quando venhem, por vezes, também traficam algo”.......