Dom Calixto, o cura da Boulhosa, não teve medo o calor e montou um dia mais na sua cavaleria, uma besta grisalha e nobre de pranta e bom porte, e mansinhamente percorreo os quatro quilómentros de caminho entre A Boulhosa e Baltar. Ainda não há estrada apropriada para os automóveis, os caminhos são os mesmos que os dos nossos antergos galaícos, galaico-romanos e suevos, pois de todo havería por aquí que ainda que não temos vestigios que mostrar, tiramos de certa intuição da toponimia e achamos que os germánicos-suevos andiveram por cá. Mas não são neste caso os Suevos os que ocupam o nosso tempo e tampouco os do cura Dom Calixto. Ele chapeu na cabeça vai caminho adiante prá beirada do café do Pepinho, depois de deixar o jumento atado diante da tenda da senhora Herminia que se ocupara de pôr-lhe caldeiro de auga e manhuço de erva pra aliviar a sua espera e reponher forças pra fazer o caminho de volta.
Dom Calixto deu as horas e foi saudado por quase todos os concorrentes do café cos que se atopou. Viu-se quase obrigado a sentar-se numa das mesas de fora na que estavam animadamente a conversar o senhor abade de Baltar, o Sarxento da Garda Civil e o Dom Honorio, burócrata das oficinas do concelho, ainda que daquela diciamos Axuntamento, meio traducindo a palavra oficial de ayuntamiento. Na mesa do lado repicavam contra o mármores as fichas de dominó da partida que estavam a botar entre o Secretario, o cabo da Garda Civil, o encargado da Fenosa e o negociante em peles, perniles e variedades da mesma clase o "jamoneiro". Todos fizeram acenos breves de saudo para Dom Calixto o tempo de seguirem repinicando na mesa e alzavam a voz para justificarem uma jogada ou recriminarem-lhe o companheiro a dele.Era a música habitual.
Despois de cumprimentar a mesa na que se sentou, falou-se do tempo que estavamos a ter, moito calor pra altura do ano, ainda que pro agricultor era bom, pois o pão tinha que madurar bem pra seitura. Depois pasou-se os comentários obrigados de notícias que cada um ouvira no parte da radio. Algo se disse sobre a guerra de Vietnam, a commemoração dos vintecinco anos de paz que nos trouxera “o Generalísimo” que aparecia sorrinte nos cartazes pendurados por toda parte. Todos resaltavam quanto tinha prosperado Espanha dende então e a Deus grazas podíamos desfrutar do período mais longo de paz da historia da Pátria. Todos concordavam felizes de viver naquele momento de progreso e solaz, no que estavamos a prosperar moito, atrás ficavam os ominosos anos da fame. Num momento Dom Calixto morninhamente, dirigindo-se o Sarxento, fijo um comentário obrigado.
—Então Dom Fernando, andarão moi ocupados na Comandáncia coa desgraza do asassinato do chofer.
O sarxento era já um homem maduro. Dava imagem também de experimentado no seu oficio pois a cara já anunciava andar no final da sua carreira. É precisso dizer que naquela altura e por ordem da superioridade, ainda nos seus momentos de ocio os gardas tinham que vestir o uniforme reglamentario com cinto e pistola do nove largo na funda e o tricornio negro apostado o seu carão, ou onde estivesse a mão. Ele tinha um fino bigode, pelo branco curto, homem de meia altura, delgado e fino de talhe. A sua apariência não era nada arrogante e moitas vezes passava desapercebido no local do café. Ele contestou a Dom Calixto com moita mais longura e dedicação da que acostumava para os casos de asuntos de serviço. Tal vez um pouco doido pola circunstancia de parecer que estava tutelado por um superior, o capitám, e para justificar-se ante uma pessoa que ele sabia conhecedora do que passava e pra divulgação pública, por se houvesse algún “ruxe-ruxe”, ou um “dixo-me, dixo-me”, que puder pôr em dúvida o seu prestixio, comentou para todos os presentes,
— Pois não pense, dom Calixto. Como bem sabe você a investigação está totalmente nas mãos do Capitám Folgoso Quintana que veu dende Madrid a pé feito pra fazer-se cargo de todo. Nós estamos tranquilos, nada temos para fazer o respeito nem os meus jefes me chamam pra nada. Só lhe damos apoio e informação que nos pede o capitám e nada mais. Ele fala cos gardas, comigo, interroga gente da que comunicamos suspeitas etc. e fai uma cousa que nós numca fizemos, falar moito coa GNR. Tem falado co Tenente Coronel de Chaves e também co capitám de Montealegre. Isto é cousa novidosa para nós porque nós pouco, por não dizer nada, falamos cos portugueses e como bem sabe, ainda que os dous povos temos governos amigos, na práctica,estamos acostumados a andar de costas viradas para os gardinhas e eles também para nós. O nosso trabalho é nem deixar pasar dalá pra cá nem o ar se for posível, assím que o inimigo para nós está lá depois da raia. Haja o que houver nas investigações, acho vão durar pouco tempo, pois o capitam vem com moitas ganhas de esclarecer pronto o caso e de seguro que o fará logo.
O sarxento até se surprendeu a se mesmo da largueza com que falara. No entanto, parecia pensar para sim-mesmo que o destinatario da mesma, um cura, merecia dar-lhe certa relevância e confiança. Não há problema, pensou, que melhor que um cura para ter prudência no falar. Mas não era ele um dos tantos que falam por falar, neste caso administrou bem as suas palavras, o Sarxento D. Fernando Airas Maroto, pois o seu objectivo era por o seu relato a correr por ahí adiante. (Já me entendem). Home com experiência sabia que a propaganda se não cha fam outros polo menos intenta faze-la tu.
— Compreendo- engadiu dom Calixto. — Já sabe meu amigo, o mesmo se passa na Igrexa como Institução ainda que divina, também é humana e jerarquica. Onde há jerarquia como passa no Corpo da Garda Civil, estas cousas sucedem e só queda ponher-se, como dizem os militares, em primeiro tempo de saúdo. Razões poderosas terá o mando para as suas decisões.
Ficava claro que a presença do capitam adoecia moito o Sarxento-comandante do posto de Baltar. Temia, como qualquera, que o seu prestigio fosse minguado por comentarios mal intecionados. E já como pra rematar a conversa o sarxento soltou uma pequena arenga patriótica e moral tão habitual naquela altura.
—Assim é Dom Calixto, e assim deve ser, como bem di você. A disciplina é para nós a pedra angular do nosso ser e saber estar. Hoje em Espanha temos paz, trabalho e ordem e grazas o nosso "Caudillo" que Deus conserve moitos anos. Mas bem sabe você e todos voçês que a Garda Civil foi na guerra e é agora o piar clave do mantemento do ordem e a vixiancia e o controlo daqueles que quigessem subverter o nosso Régime.
Dom Calixto recebeu o embate moral e ideolóxico e também quijo deixar a sua pegada naquel pequeno duelo florentino.
—Faço minhas as suas palavras e desejos, caro D. Fernando e engado, que sem a fé e a lavoura pastoral da Igreja tudo sería estéril. A “Vitoria” trouxe a recuperação dos valores morales da religião. A nossa vitoria foi o trunfo conjunto da espada e o altar. Espanha voltou a ser o guieiro espiritual do mundo. Assim é que o nosso "Caudillo" é tal pola graza de Deus que legiu e o proteje.
Estas palavras obrigadas para um pastor da Igreja, dadas as circunstâncias do mais vale parecer que ser. Palavras que estavam a ouvir as élites do povo e gente variada. Despois Dom Calixto levantou-se e dispuso-xe a retirar-se daquela reunião florentina.
—Senhores, moi boas tardes, até outro momento. Fiquem com Deus.
