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mércores, 18 de marzo de 2026

Lendas da minha aldeia. Qualquer tempo passado foi: DIFERENTE.

 

 

A tenda do senhor Eurico é uma tenda pequena que vende pouca cousa, e ele   a verdade,  não é moi simpático cos rapazes mas tampouco e maluco nem mal encarado. Nem uma palavra amável nem tampouco de desprezo. Só nos olha como clientes e como tais nos trata. Alí não há lerias. Temos-lhe um alcume, o coninhas,  polo tacanho e forreta que  é, pois numca da nem um caramelo nem um figo demais.  Na tenda ainda tem uma antiga bomba prá despachar azeite de cocinhar prá vender a granel e sobre todo um enorme aparato de radio, que dizem trouxo de Venezuela cando estivo emigrado. A radio  sona limpo, forte e aberto e escoita-se como se as pessoas estivessem alí mesmo a falar. É uma maravilha. Ele escoita os partes que dão as horas, especialmente o de medio dia e o da noite. Nós sentamos nos sentadoiros de fora, sobre todo agora no verão, prá escoitar o “parte” de Radio Nacional de Espanha. Ua sintonia de música inicial moi bonita que fica pegada nos ouvidos  e uma voz sonora dum senhor que começa sempre: “Diario hablado de Radio Nacional de España” ; “Su Exceléncia el Jefe del Estado…”, ou:  “su excelencia el Jefe del Estado y General del los Ejércitos D. Francisco Franco Bahamonde….” ou também:  “hoy el Caudillo de España excelentismo d. Francisco Franco Bahamonde”...  E frases assím que me resultam especiais e familiares e que sei de memória de tanto ouvi-las e repeti-las. Sentamo-nos fora nuns sentadoiros de pedra a meiodia ou a noitinha, no verão,  para escoitar o “parte” que dava a radio, ou a vezes se tinhamos sorte punham música e cantantes,  A mim gosta-me moito o “parte” do meio dia, começa com uma música sonora e sempre igual como  sintonía, para dar passo a uma voz solene e retórica com um castelhano elegante falado por um alguém impersoal a quem lhe inventavamos uma cara,  cada um a sua,  e que parecia estar ali o nosso lado. Ali escoita-mos palavras como Vietnam, vietcong, Generalísimo, Movimiento, Falange etc. Na minha casa também há uma radio que se escoita de noite principalmente e especialmente um programa religioso o que acudiam umas vecinhas que não tinha radio e era fãs dum programa que fazia um tal padre Monroy. Falava moi bem sobre Deus e Cristo e a religião e em realidade não era padre, pois  el sempre dizia só o seu nome : —“les ha hablado Juan Antonio Monroy”—, pero a minha vecinha e outros ouvintes fieis pensavam que era um cura, e não podiam chegar a compreender que falasse também de Deus algúem que não fosse “padre”. Eles  adoravam o seu palavreio castelhano, fino e elegante,  adornado  cum melodioso sotaque hispanoamericano que lhe dava um ar beatífico e de ambente de finura que era moi apreciado por estes lugares. Passado um tempo descobrimos todos que este tal Monroy era protestante e ficamos todos pampos a um tempo ser para todos uma grande desilusão que nos  obrigou, por remordementos de conciencia, termos de  deijar de escoitar aquela retransmissão tão bonita. Aquí somos moito da católica, apostólica e romana.

 

xoves, 12 de marzo de 2026

luns, 26 de xaneiro de 2026

Era daquela num dia de Julho, do 1965 em Baltar.

 

   Dom Calixto, o cura da Boulhosa,  não teve medo o calor e montou um dia mais  na sua cavaleria, uma besta grisalha e nobre de pranta e bom porte,  e mansinhamente percorreo os quatro quilómentros de caminho entre A Boulhosa e Baltar. Ainda não há estrada apropriada para os automóveis, os caminhos são os mesmos que os dos nossos antergos galaícos, galaico-romanos e suevos, pois de todo havería por aquí que ainda que não temos vestigios que mostrar, tiramos de certa intuição da toponimia e achamos que os germánicos-suevos andiveram por cá. Mas não são neste caso os Suevos os que ocupam o nosso tempo e tampouco os do cura Dom Calixto. Ele chapeu na cabeça vai caminho adiante prá beirada do café do Pepinho,  depois de deixar o jumento atado diante da tenda da senhora Herminia que se ocupara de pôr-lhe caldeiro de auga e manhuço de erva pra aliviar a sua espera e reponher forças pra fazer o caminho de volta.

       Dom Calixto deu as horas  e foi saudado por quase todos os concorrentes do café cos que se atopou. Viu-se quase obrigado a sentar-se numa das mesas de fora na que estavam animadamente a conversar o senhor abade de Baltar, o Sarxento da Garda Civil e o  Dom  Honorio, burócrata das oficinas do concelho, ainda que daquela diciamos Axuntamento, meio traducindo a palavra oficial de ayuntamiento. Na mesa do lado repicavam contra o mármores as fichas de dominó da partida que estavam a botar entre o Secretario, o cabo da Garda Civil, o encargado da Fenosa e o negociante em peles, perniles e variedades da mesma clase o "jamoneiro". Todos fizeram acenos breves de saudo para Dom Calixto o tempo de seguirem  repinicando na mesa e  alzavam a voz para justificarem uma jogada ou recriminarem-lhe o companheiro a dele.Era a música habitual.

   Despois de cumprimentar a mesa na que se sentou, falou-se do tempo que estavamos a ter, moito calor pra altura do ano, ainda que pro  agricultor era bom, pois o pão tinha que madurar bem pra seitura. Depois pasou-se  os comentários obrigados de notícias que cada um ouvira no parte da radio.  Algo se disse sobre a guerra de Vietnam,  a commemoração dos vintecinco anos de paz  que nos trouxera  “o  Generalísimo” que aparecia sorrinte nos cartazes pendurados por toda parte. Todos resaltavam quanto tinha prosperado Espanha dende então e a Deus grazas podíamos desfrutar do período mais longo de paz da historia da Pátria. Todos concordavam felizes de viver naquele momento de progreso e solaz, no que estavamos a prosperar moito, atrás ficavam os ominosos anos da fame. Num momento Dom Calixto morninhamente, dirigindo-se o Sarxento, fijo um comentário obrigado. 

    —Então Dom Fernando, andarão moi ocupados na Comandáncia coa desgraza do asassinato do chofer. 

     O sarxento era já um homem maduro. Dava imagem também de experimentado no seu oficio pois a cara já anunciava andar  no final da sua carreira. É precisso dizer que naquela altura e por ordem da superioridade, ainda nos seus momentos de ocio os gardas tinham que vestir o uniforme reglamentario com cinto e pistola do nove largo na funda  e o tricornio negro apostado o seu carão, ou  onde estivesse a mão. Ele tinha um fino bigode, pelo branco curto, homem de  meia altura, delgado e fino de talhe. A sua apariência não era nada arrogante e moitas vezes passava desapercebido no local do café. Ele contestou a Dom Calixto com moita mais longura e dedicação da que acostumava para os casos de asuntos de serviço. Tal vez um pouco doido pola circunstancia de parecer que estava tutelado por um superior, o capitám,  e para justificar-se ante uma pessoa  que  ele sabia conhecedora do que passava e pra divulgação pública, por se houvesse algún “ruxe-ruxe”, ou um “dixo-me, dixo-me”, que puder pôr  em dúvida o seu prestixio,  comentou para todos os presentes,

— Pois não pense, dom Calixto. Como bem sabe você a investigação  está totalmente nas mãos do Capitám Folgoso Quintana que veu dende Madrid  a pé feito pra fazer-se cargo de todo. Nós estamos tranquilos, nada temos para fazer o respeito nem os meus jefes me chamam pra nada. Só lhe damos apoio e informação que nos pede o capitám  e nada mais. Ele fala cos gardas, comigo, interroga gente da que comunicamos suspeitas etc. e  fai  uma cousa que nós numca fizemos, falar moito coa GNR. Tem falado co Tenente Coronel de Chaves  e também co capitám de Montealegre. Isto é cousa novidosa para nós porque nós pouco, por não dizer nada, falamos cos portugueses e como bem sabe, ainda que os dous povos temos governos amigos,  na práctica,estamos acostumados  a andar   de costas viradas para os gardinhas e eles também para nós. O nosso trabalho é nem deixar pasar dalá pra cá nem o ar se for posível, assím que o inimigo para nós está lá depois da raia. Haja o que houver nas investigações, acho vão durar pouco tempo, pois o capitam vem com moitas ganhas de esclarecer pronto o caso e de seguro que o fará logo.

O sarxento até se surprendeu a se mesmo da largueza com que falara. No entanto, parecia pensar para sim-mesmo que  o destinatario da mesma,  um  cura, merecia dar-lhe certa relevância e  confiança. Não há problema, pensou, que  melhor que um cura para ter prudência no falar. Mas não era ele um dos tantos que falam por falar, neste caso administrou bem as suas palavras,  o Sarxento D. Fernando Airas  Maroto, pois o seu objectivo era por o  seu relato  a correr por ahí adiante. (Já me entendem). Home com experiência sabia que a  propaganda se não cha fam outros polo menos intenta faze-la tu.

   — Compreendo- engadiu dom Calixto. — Já sabe meu amigo, o mesmo se passa na Igrexa como Institução ainda que divina, também é humana e jerarquica. Onde há jerarquia como passa no Corpo da Garda Civil, estas cousas sucedem e só queda ponher-se, como dizem os militares, em primeiro tempo de saúdo. Razões poderosas  terá o mando para as suas decisões. 

   Ficava claro que a presença do capitam adoecia moito o Sarxento-comandante do posto de Baltar. Temia, como qualquera, que o seu prestigio fosse minguado por comentarios mal intecionados. E já  como pra rematar a conversa o sarxento  soltou uma pequena arenga patriótica e moral tão habitual naquela altura.

 —Assim é Dom Calixto, e assim deve ser, como bem di você. A disciplina é para nós a pedra angular do nosso ser e  saber estar. Hoje em  Espanha temos paz, trabalho e ordem e grazas o nosso  "Caudillo" que Deus conserve moitos anos. Mas bem sabe você e todos voçês que a Garda Civil foi na guerra e é agora o piar clave do mantemento do ordem e a vixiancia e o controlo daqueles que quigessem subverter o nosso Régime. 

Dom Calixto recebeu o embate moral e ideolóxico e também  quijo deixar a sua pegada naquel pequeno duelo florentino. 

—Faço minhas as suas palavras e desejos, caro D. Fernando e engado,  que sem a fé e a lavoura pastoral da Igreja tudo sería estéril. A “Vitoria” trouxe a recuperação dos valores morales da religião. A nossa vitoria foi o trunfo conjunto da espada e o altar. Espanha voltou a ser o guieiro espiritual do mundo. Assim é que o nosso "Caudillo"  é tal pola graza de Deus que legiu e o proteje.

 Estas  palavras obrigadas para um pastor da Igreja, dadas as circunstâncias do mais vale parecer que ser. Palavras que estavam a ouvir as élites do povo e gente variada. Despois  Dom Calixto levantou-se e dispuso-xe a retirar-se daquela reunião florentina.

  —Senhores, moi boas tardes, até outro momento. Fiquem com Deus. 

ImaxeConto o que sei por ter vivido e não  por ouvir dizer.Conto de acontecidos verdadeiros... 

 

martes, 20 de xaneiro de 2026

Eu som de fentos. E de passo , algo da imersão linguística.

 Fentos | Doeixo | Flickr

https://twitter.com/DiegoBernalRico/status/1799155556994916533

No padrom galego FENTOS! Em Portugal som FETOS e no Brasil SAMAMBAIAS

E vós como lle chamades aos "fuentos"? Fentos, fieitos, folgueiras... na Raia seca, en Calvos de Randín chamámoslle "fuentos" 

Na minha zona muita gente diz "fentos". Quando era criança era a única forma que eu conhecia.
 
    Assim desta maneira parolavam uns e outros arredor da palavra Fentos, que para mim sempre foi clara e única, desconhecedor que noutros lugares usavam outras palavras parecidas para identificar aquela planta tão comúm.   Pero bem se vê que não é asim o qual demostra a riqueza do galego e dos moitos sinónimos das nossas palavras espalhadas polo territorio galego e português.  
     No entanto, esta questão intrascendente e nada novidossa deu-me pê para recordar-me duma anedota que passou na minha infância escolar,  lá no meu povo co meu mestre na  altura  de Atapuerca.  
 

  Anedota: 

      Eu vivim uma época, a que me tocou, que me proporcionou uma inmersão lingüística natural  no galego que tal vez fosse a última da historia. Dende o 1956 a 1966 eu só ouvia falar em galego, e só falava em galego. O espanhol  tinha-mô-lo na escola, como idioma de aprendizajem , e como idioma oficial necessario para sermos uns cidadãos plenos. Co mestre tanto nas aulas  como fora delas a comunicação era quase sempre em  castelhano, ainda que ele era, normalmente,  falante galego coas persoas do povo. Na igreja  o cura falava-nos o castelhano, misturado na vida ordinária co galego.  Os funcionarios do concelho e os médicos também nos falavam em galego. Havía só uma ou duas familias,  a chamada do médico, o veterinario e alguma mestra que vinha de paso,que falassem entre eles em castelhano. Os Gardias falavam-nos todos em galego.  Era moi pouco, quase mínimo o uso de radio e  televisão, na que ouviamos o castelhano. Além da enciclopedia, o catecismo,  algúm livrinho ou jornal, alguns tebeos,  poucos mais livros tinhamos para lêr em castelhano, obviamente em galego não existiam ainda livros escritos para a gente comúm. As horas de galego eram o cabo do dia, moitas em todo o ano, com destaque no  inverno arredor da lareira coa narração das lendas, as conversas familiares e  a transmisão de conhecementos antigos e faladoiros varios: todo esto era em galego.    
      Pois bem o senhor mestre que nos tocou, pedagogo das silveiras,   era um sabio na utilização da retranca tanto  na sua vida ordinaria como cos alunos  nas aulas. Pero  olho, a sua retranca sempre estava adereçada ou mais bem estercada coa burla,  a mofa e misturada com um pouquinho de  humilhação e rebaixamento da dignidade daquelas pequenas alminhas. 
     Em certa ocasião prá ensinar-nos uma palavra castelhana, rara no sonido  prá nós ,  a qual  ninguém utiliçava, fixo uma performance do seu jeito. Assim pois para aprender-mos e não olvidar-nos numca da palavra "helechos" que parecia resistirse-nos no aprendizajem, escolheu a tres incautos da classe e dixo-lhes: 
   —Ides  o monte da fonte de  Miro, que fica detrás da escola,  e apanha-des  uns "helechos e traede-los ". 
   Os rapazes sairom coas caras asustadas, sem dizer palavra, pois o medo é o que tem, que não te deixa falar. Sairom pois como almas em pena e já fora da clase,  tentariam  gestionar da melhor forma que se lhes ocorriria a ordem recevida,  embora topariam-se, os coitados, coa  sua ignorância. Os que ficamos acochados entre aquelas paredes, os afortunados que  quedamos na aula, estávamos também olhando para o céu e dando vivas de não sermos  parte daquela vítimas que iam ser masacradas. Nós também eramos vítimas da nossa ignorância. 
     O senhor pedagogo das silveiras, em quanto sairom já fixo chacota  dos mandados, sabedor de que não iam encontrar "helechos" no monte de  Miro. Pero não porque não os houvesse, que de isso sobraba por alí, senão porque eles não sabiam que os tais helechos são os nossos fentos de toda a vida. Eis a questãó, tanto dizer sempre fentos não se nos ocorrira saber que longe de nós outra gente chamava-lhe a aquelas prantas que não tinham jeito nem valor: "helechos". 
      Chegarom dalí a um bom tempo, os nossos colegas. E asustadinhos, entrarom: 
     —Da usted su permiso. 
     —Que, traedes os helechos? —Ele sempre nos falava em castelhano, obviamente, ainda que prá fazer brincadeiras, mostrar-se  graçioso-chistoso,  e fazer escárnio, então utilizava o galego. 
      Eles só conseguirom mover a cabeça a vez que contestavam 
      — No señor.—Dito baixinho. 
 Sem atrever-se a dizeer que não sabiam o que eram os tais helechos.
       Daquela falou o boi e dixo muuuu:  
     — Pois mirai, lapadoiras, que sodes uns lapadoiras, os helechos são o mesmo que os fentos. Passai, e haver se assim vos queda aprendida  prá sempre a palavra. 

 Imersão lingüística: 

 
      Pois assim foi. São as cousas que tem a "imersão lingüística" que as vezes não sabes o que são os helechos. Uma eiva terrível na formação intelectual dum neno da aldeia. 
      Orgulho-me de haver sido filho de viver numa época na que a realidade era o que agora chamamos inmersão linguística que me facilitou ter e pensar no meu propio idioma e que não me privou de falar e lêr em castelhano em moitos casos bastante melhor que aqueles criados na cidade e só no idioma castelhano. Não  foi numca na minha vida um travão, viver isolado em galego os nove primeiros anos da minha vida,  prá fazer despois  um bacharelato fora de Galiza, falar um castelhano perfeito, ter duas carreiras universitarias. Sim foi  uma aprendizajem que me proporcionou uma vantagem que da o ter dous idiomas:  empenho na comparação dum e outro para corregir os posíveis erros no que o meu galego colisionava co castelhano; isso ajudou-me a falar bem o castelhano por evidentes motivos de interesse, magoa que daquela eu não sabia que a minha fala ou linguagem também era um idioma normativizado pola história e uso e a costume secular de gentes que o mantiverom e perfecionarom. Quando a mente trabalha em dous sistemas linguísticos diferentes está a favorecer o conhecemento de outros idiomas, abre a mente a curiosidade e o conhecemento e familiariza-nos coas palavras, ou seja uns amadores da filologia.