
Encontrei-me
por acaso com este artigo, que não sei que titulo teria, de Clara
Ferreira Alves, apanhado não sei onde. Creio que merece ficar no presente-passado-futuro do que foi Portugal e do que éramos os seus vizinhos. Sirva também para recordar o 25 de Abril
Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia
observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós
Anda por aí gente
com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da
ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do
Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com
madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos
espanhóis, do
telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e
informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.
Eu não ponho
flores neste cemitério.
Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos.
No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no
estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe
indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder
aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste
filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o
mundo português
continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade
havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia
vendia açúcar e
farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando
recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da
província,
onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco
uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns
preciosos pêssegos.
As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era
partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do
Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou
semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as
crianças que
choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A
criança
crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha
grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos
vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano
andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o
povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de
ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.
Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se
com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e
vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com
Veneno de Ratos’. A
violação era
comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios
ou irmãos mais
velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um
direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se
convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos
estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid.
Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O
trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a
universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte
nem sair do país sem
autorização do
homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da
guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande
viagem da família
remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A
fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se
maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em
quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que
instituíra uma
teoria da exceção para
os seus acólitos.
O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o
corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a
quem o servia. Não havia
liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores,
jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com
perseguição e
prisão.
Havia presos políticos,
exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes
e se saíssem de
Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da
soldadesca. A fé era a única coisa que o povo
tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois
da morte, evidentemente.
Muito orgulho. Muito que comentar a tanta trapalhada indocumentada e fanática, fica adiado. Não imaginava eu que a propaganda, a desumanização e a crispação criada na Espanha e o conceito criado de “sanchismo” ia ser comprado também pela esterqueira portuguesa. A direita desde o primeiro dia deste governo chamou-lhe de : ilegítimo, ditadura, corrupção…. Sánchez foi posto como o culpável de todos os maus inventados. E que roubou o poder. Nada, tudo falso, que mais da, o poder e nosso e agora tínhamos que governar nós, a direita, o poder económico acochado trás do palerma dum galego desleixado líder do partido da oposição. Onde a corrupção?: sim descobriu-se um caso grave que foi controlado e expulsos do partido automaticamente os dois malandros correspondentes. A mulher investigada dois anos, não há nada, só tonteiras de merda, mas a a tensão mediática mantêm aceso o lume duma certa corrupção.
Lawfare: Sobre um autêntico golpe de estado por forças da judicatura, além das absurdas causas abertas a mulher e o irmão. Condenou-se o Fiscal Geral do Estado, contra todos os princípios da presunção de inocência etc. A oposição e agentes da extrema direita apresentam continuamente causas absurdas e juízes que abrem diligências absurdas. No caso de deixar o poder e governar a direita vai o cárcere, seguro. O motivo já aparecerá, não preocupar-se, há cutelos afiados preparados para a matança do porco.
Economia: Vai melhor que nunca. Também se não fosse assim este governo não aguentava. O Ministro de Economia só foi perguntado duas vezes em quatro anos no parlamento. Isso diz moitas coisas juntas. “É a economia estúpido”, resumindo.
Catalunha: Ganhou as eleições na Catalunha, pacificou o ambiente independentista e os grupos catalães apoiam o Governo. Deu uma lei de amnistia, os condenados no procés, necessária para a vida política. Sofreu uma campanha feroz na rua e nos médios e mais gente em contra da lei da Amnistia ( por certo numa de essas manifestações em Madrid falou o senhor Rangel no que fez um papel patético).
Vá lá, pois: aqui o melhor presidente da história democrática de Espanha. Digam lá o que queiram, será exagero, mas o tempo porá a cada um no seu lugar, que caralho. Sofreu e sofre uma campanha animal “ad hominem”. Já vejo que também aqui alguns compraram o relato da desumanização da pessoa, e que nele estão preenchidos todas as maldades do mundo. Incluso há quem diz que Espanha é uma ditadura, e da prá risso. Eu compreendo a gente, porque as campanhas de mentiras e patranhas diárias duma oposição política lamentável dirigida por dois patifeiros ( perdão pelo localismo), patifes, biltres e canalhas, quem só têm o objectivo de desprestigiar as pessoas com boatos de manhã, de tarde e de noite. Todo é boato na informação espanhola excepto a rtve e a cadeia SER. Tudo esterqueira, merdalhada baseada na pilhéria que nos farta alguma gente. O pais esta estável, a uma direção e mando, tem boa equipa e apoio do partido. Gestionou como ninguêm as calamidaes, moitas, que teve no seu mandato: Covid, Dana Valencia, incêndios, Volcão de Canarias, accidente de combio, crise da guerra de Ucrânia etc. Que mais se quer.
É Valente, inteligente, fala inglês ( para vocês em Portugal não tem importância, mas isso num político espanhol é tão raro como encontrar o monstro de duas cabeças). Tem presença internacional. Representa como ninguém a um país como Espanha. Conseguiu formar um governo com gentes mói variadas a sua esquerda e cos nacionalistas vascões e catalães. Que é senão a política? Em que consiste governar?. E agora cos ventos demoníacos vêem do Averno, quem é o primeiro que pus pé em parede, quem deu fôlegos a muitos para dizer, não sejamos cômplices desta armadilha na que está o mundo. Guerra com legalidade internacional, não os crimes de Gaza.
Olho. Fica aqui dito. Vai ganhar as próximas eleições de 2027, ou estar em condições de artilhar uma maioria para governar: Pois tem as ferramentas económicas para por em caminho reformas profundas no tecido industrial, ainda seja sem pressupostos. Tem conteúdo internacional, ele é agora uma peça fundamental no tabuleiro internacional e não só para esquerda. Além de que para qualquer democrata que tenha fé nos direitos humanos, na paz e na legalidade internacional. Faz ainda pouco Scholz na Alemanha recebeu o aplauso de convocar eleições por não conseguir presentar pressupostos, foi honrado e suicida. Muita gente aplaudiu a sua valentía e coragem e responsabílidade. Em tempo normais também eu elogiaría. Mas no mundo de hoje diante da ola reaccional mundial e a gravidade que supôe Trump, o mais coerente e respon´savel e resistir dentro do marco democrático. Não rendir-se. Hoje Em alemanhã haveeria uma coaligração de esquerdas e não um conservador ameaçado pola extrema direita, Merz, que esta a poner em risco a toda Europa pela sua teima de agradar a Trump e não ajudar a liderar os países europeus ante a ameaça atual. Hoje Merz está a ser questionado no seu próprio país pelo seu apoio. Sánchez tem demostrado que é valioso resistir. Por qué importa que a Espanha não seja outro país europeu governado pela direita extrema e a extrema direita, mais lá de que tenha ou não tenha pressupostos.
Sei que digo isto em Espanha e além de pedradas receberei risos de moita gente. Por isso na rua e nas conversas, só nas amizades, podes dizer isto. Conseguiram um ambiente tão negativo “ad hominem”, querem fazer-nos ver que vivemos numa ditadura que a corrupção é insuportável etc. Que para não entrar em confrontação alguns vivemos caladinhos como esses apolíticos-cidadãos que nunca dizem nada.
Quem queira ouvir que ouça, quem queira comprar o relato do PP, corrupto e condenado por corrupção, que mantém o poder na maioria dos governos autonómicos e utilizao para confrontar co governo de coalição, amém. Quem seja de extrema direita e amigo de Vox e o Chega, não tenho nada a dizer, só se for possível respeito democrático, mas isso é a antítese de Vox. Seja como for, a lição que oxalá aprendêssemos seria o respeito as regras democráticas e respeitar a constituição. Fora disse campo agora não há onde ir, só o Averno.