mércores, 29 de abril de 2026

Choir! Choir! Choir! & Patti Smith sing "PEOPLE HAVE THE POWER" (Reciclaje blogueiro)

 No 2021, este post. Hoje é atualidade Patti Smith é premio Princesa de Asturias. 

Choir! Choir! Choir! & Patti Smith sing "PEOPLE HAVE THE POWER"

 

https://www.youtube.com/watch?v=y6Wz3i_BYUc&t=7s 

I was dreaming in my dreaming

 Of an aspect bright and fair 

And my sleeping it was broken 

But my dream it lingered near

 In the form of shining valleys

 Where the pure air recognized 

And my senses newly opened

 I awakened to the cry 

That the people have the power

 To redeem the work of fools

 Upon the meek the graces shower It's decreed the people rule 

The people have the power The people have the power The people have the power The people have the power 

Vengeful aspects became suspect

 And bending low as if to hear

 And the armies ceased advancing 

Because the people had their ear

 And the shepherds and the soldiers

 Lay beneath the stars 

Exchanging visions 

And laying arms 

To waste in the dust

 In the form of shining valleys

 Where the pure air recognized

 And my senses newly… 

 

Estaba soñando en mi sueño
De aspecto brillante y justo
Y mi dormir estaba roto
Pero mi sueño se demoró cerca
En forma de valles brillantes
Donde el aire puro reconoció
Y mis sentidos recién abiertos
Me desperté al llanto
Que la gente tiene el poder
Para redimir la obra de los necios
Sobre los mansos las gracias se derraman
Está decretado que el pueblo gobierne
La gente tiene el poder
La gente tiene el poder
La gente tiene el poder
La gente tiene el poder
Los aspectos vengativos se volvieron sospechosos
Y agachándome como para escuchar
Y los ejércitos dejaron de avanzar
Porque la gente tenía su oído
Y los pastores y los soldados
Acuéstate bajo las estrellas
Intercambiando visiones
Y poniendo las armas
Para desperdiciar en el polvo
En forma de valles brillantes
Donde el aire puro reconoció
Y mis sentidos nuevamente ...

martes, 28 de abril de 2026

O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro.

 

                               1957

         O Manuscrito do capitám: Filho dum guerrilheiro.

    Chamo-me Manuel Folgoso Quintana. Presento-vos estes pequenos escritos que  estou a  rematar, para deixar pegada duns recordos moi importantes e que eu tinha gardados ma minha gaveta. Acho tenhem importância para comprendére-des tanto a minha vida como o meu modo de ser. Trato de não olvidar os momentos ou experiências  tão importantes que vivim no verão do ano  1957, despois de rematar o meu período académico  para obter a recem  graduação de Tenente. Hojé já som um  Garda Civil co grado de Tenente.

Nascim em Quintairos, uma aldeia moi pequena da parróquia de Santiago de Amoroce do concelho de Celanova. O meu ano de nascimento, 1936, não foi um dos melhores da história. Passarom cousas daquela.  Crescim no seio duma família ordenada, católica, como quase  todas na altura.Vivim  mergulhado entre o  ambiente dum quartel da Garda Civil e uma vida de aldeia da postguerra. Criei-me, no que em Galiza se conhecem, com moito acerto, os  anos da fame.  Anos  carentes de moitas cousas básicas materiais que hoje temos, aliás os meus recordos são alegres,  não nos faltava nem  amor nem felicidade nos anos que nos criamos. Os meus país eram Antonio Folgoso Pousa e Lurdes Quintana Carreira. Ele Garda Civil e ela ama de casa. A  minha infância foi quase toda entre a  vila de Celanova e  a  aldeia  da que tinhamos a nossa   procedencia familiar tanto paterna como materna. Alí em Quintairos, nossa pequena aldeia,   estamos quase todos vinculados familiarmente uns cos outros como é o natural em qualquer aldeia galega. O meu pai  estivo destinado nos postos da contorna,  pertecentes a Companhia da  Garda Civil  de Celanova,  prácticamante toda a sua carreira, excepto um ano que por ascenso a cabo foi destinado o posto de Baltar, um povo de fronteira perto de Ginzo da Limia. Isso foi,  lá na altura de 1946.Tinha eu daquela apenas nove anos para dez. Despois voltou a Celanova e recem por idade passou a reserva despois de retirar-se no cargo de   Sargento. Tivem uma infância feliz, como quase todos os nenos que conhecim. Bom estudante, os meus país internaron-me os dez anos no colégio dos Salesianos de Ourense para començar o bacharelato como era  o habitual, já que  em Celanova não havia nem há ainda  centro de ensino para conseguir tirar o título de bacharel. A alternativa  somente era a  posibilidade de seguir na escola pública até os catorce anos para assim acadar o certificado de estudos primarios. Rematado o bacharelato e o correspondente exame de révalida no Instituto do Possío de Ourense, forom chegados os tempos  de mudar o rumo da vida, pois  a idade  de decidir já chegara.Tomei a decisão que  tinha pensada já nos últimos anos. Não iria a  Universidade. A minha escolha clara era preparar-me para ingressar na Academia General Militar em Zaragoza. Queria ser militar de carreira e se for posível da Garda Civil. E assim foi, consegui o meu objetivo, ingressei e depois de quatro anos  conseguím a graduação como  oficial da Garda Civil co grado de Tenente. Esta professão  era a que eu vira no meu entorno e que considerava, além da esquisita mitificação da pulha da vocação, como a via ideal para conseguir o trunfo social na vida. Pero não só era o logro persoal o motivante desta decisão, também significava moito para mim  sentir o orgulho do  meu pai  o ver-me alcançar  este nível que ele valorava moi bem, obviamente. Isto era para mim já uma satisfação imensa de por si. Era como devolver algo a quem com tanto sacrificio turrou de mim para esforçar-me  e empenhou-se tanto na minha educação.  É normal que toda a vida vendo e admirando os oficiais da Garda Civil tenta-se eu, ainda que fosse no meu magim, seguir o modelo admirado e propor-me algum dia ser um deles.

     Como se pode ver, até aquí, seguindo um pensamento lógico qualquera pode pensar que  na minha vida  todo parece ser maravilhoso.Abofé, não se podia pedir mais, conseguir o que queres, sentir-te querido polos teus e ver o horizonte vital despejado. Tal vez,  os asuntos do amor, cousa de pouco interés aquí e agora,  andariam um pouco amuados e arrefriados. No obstante, esta Arcadia feliz pareceu um dia agitar-se e remerxer no meu mundo tão bem controlado. Tuvem noticias impactantes e marcantes as quais pareciam ser capaçes de esfarrapar esta harmonia vital e emocional. O caso é que não foi assim, por fortuna, todo o contrario, não foi nenhuma desgraça. Como contarei de seguido, mas bem, foi uma benção de vida, embora num primeiro impacto trocasse tanta felicidade por certa angúria e ansiedade.

 Pode haver cousas da tua vida que estejam  acochadas em algures, que tu mesmo não saibas da sua existência  e que outros sepam mais de ti ca ti mesmo?. Não é o normal, mas pode ser.

 Não se trata do que tu  fizeras ou que por omisão não fizeras.Não, estou a falar de algo que tu não decidiches e que te atopas com ele e vai acompanhar-te no teu percurso vital. Em resumo, algo que, simplesmente existe, faz parte da tua vida ainda que tu não sabes que existe e tal vez nunca irás  a sabe-lo. Ninguém te diz nada; som uma persoa respeitável; som um intocável a quem não se pode criticar ou prejudicar, som um venturoso e ditoso cidadão militar que vive numa sociedade na que valora-se como nenhuma o apogeu militar. Mas sempre há uma primeira ocasião para todo na vida e sempre haverá alguém que por razões insondáveis e inexplicáveis, rache e perturbe esse plácido entorno e viole o pacto tácito da gente dos teus lugares e da tua circunvizinhança.

Vamos pois a desvendar este introito tão rebuscado e misterioso...........

 

Sachando nos eidos alheios.

 No aspirina b, o reis, andou sachando nos eidos alheios. 

Orgulho ibérico

Pedro Sánchez vai propor fim do acordo UE-Israel por “violações de direitos humanos” 

Muito orgulho. Muito que comentar a tanta trapalhada indocumentada e fanática, fica adiado. Não imaginava eu que a propaganda, a desumanização e a crispação criada na Espanha e o conceito criado de “sanchismo” ia ser comprado também pela esterqueira portuguesa. A direita desde o primeiro dia deste governo chamou-lhe de : ilegítimo, ditadura, corrupção…. Sánchez foi posto como o culpável de todos os maus inventados. E que roubou o poder. Nada, tudo falso, que mais da, o poder e nosso e agora tínhamos que governar nós, a direita, o poder económico acochado trás do palerma dum galego desleixado líder do partido da oposição. Onde a corrupção?: sim descobriu-se um caso grave que foi controlado e expulsos do partido automaticamente os dois malandros correspondentes. A mulher investigada dois anos, não há nada, só tonteiras de merda, mas a a tensão mediática mantêm aceso o lume duma certa corrupção.

Lawfare: Sobre um autêntico golpe de estado por forças da judicatura, além das absurdas causas abertas a mulher e o irmão. Condenou-se o Fiscal Geral do Estado, contra todos os princípios da presunção de inocência etc. A oposição e agentes da extrema direita apresentam continuamente causas absurdas e juízes que abrem diligências absurdas. No caso de deixar o poder e governar a direita vai o cárcere, seguro. O motivo já aparecerá, não preocupar-se, há cutelos afiados preparados para a matança do porco.
Economia: Vai melhor que nunca. Também se não fosse assim este governo não aguentava. O Ministro de Economia só foi perguntado duas vezes em quatro anos no parlamento. Isso diz moitas coisas juntas. “É a economia estúpido”, resumindo.
Catalunha: Ganhou as eleições na Catalunha, pacificou o ambiente independentista e os grupos catalães apoiam o Governo. Deu uma lei de amnistia, os condenados no procés, necessária para a vida política. Sofreu uma campanha feroz na rua e nos médios e mais gente em contra da lei da Amnistia ( por certo numa de essas manifestações em Madrid falou o senhor Rangel no que fez um papel patético).

Vá lá, pois: aqui o melhor presidente da história democrática de Espanha. Digam lá o que queiram, será exagero, mas o tempo porá a cada um no seu lugar, que caralho. Sofreu e sofre uma campanha animal “ad hominem”. Já vejo que também aqui alguns compraram o relato da desumanização da pessoa, e que nele estão preenchidos todas as maldades do mundo. Incluso há quem diz que Espanha é uma ditadura, e da prá risso. Eu compreendo a gente, porque as campanhas de mentiras e patranhas diárias duma oposição política lamentável dirigida por dois patifeiros ( perdão pelo localismo), patifes, biltres e canalhas, quem só têm o objectivo de desprestigiar as pessoas com boatos de manhã, de tarde e de noite. Todo é boato na informação espanhola excepto a rtve e a cadeia SER. Tudo esterqueira, merdalhada baseada na pilhéria que nos farta alguma gente. O pais esta estável, a uma direção e mando, tem boa equipa e apoio do partido. Gestionou como ninguêm as calamidaes, moitas, que teve no seu mandato: Covid, Dana Valencia, incêndios, Volcão de Canarias, accidente de combio, crise da guerra de Ucrânia etc. Que mais se quer.

É Valente, inteligente, fala inglês ( para vocês em Portugal não tem importância, mas isso num político espanhol é tão raro como encontrar o monstro de duas cabeças). Tem presença internacional. Representa como ninguém a um país como Espanha. Conseguiu formar um governo com gentes mói variadas a sua esquerda e cos nacionalistas vascões e catalães. Que é senão a política? Em que consiste governar?. E agora cos ventos demoníacos vêem do Averno, quem é o primeiro que pus pé em parede, quem deu fôlegos a muitos para dizer, não sejamos cômplices desta armadilha na que está o mundo. Guerra com legalidade internacional, não os crimes de Gaza.
Olho. Fica aqui dito. Vai ganhar as próximas eleições de 2027, ou estar em condições de artilhar uma maioria para governar: Pois tem as ferramentas económicas para por em caminho reformas profundas no tecido industrial, ainda seja sem pressupostos. Tem conteúdo internacional, ele é agora uma peça fundamental no tabuleiro internacional e não só para esquerda. Além de que para qualquer democrata que tenha fé nos direitos humanos, na paz e na legalidade internacional. Faz ainda pouco Scholz na Alemanha recebeu o aplauso de convocar eleições por não conseguir presentar pressupostos, foi honrado e suicida. Muita gente aplaudiu a sua valentía e coragem e responsabílidade. Em tempo normais também eu elogiaría. Mas no mundo de hoje diante da ola reaccional mundial e a gravidade que supôe Trump, o mais coerente e respon´savel e resistir dentro do marco democrático. Não rendir-se. Hoje Em alemanhã haveeria uma coaligração de esquerdas e não um conservador ameaçado pola extrema direita, Merz, que esta a poner em risco a toda Europa pela sua teima de agradar a Trump e não ajudar a liderar os países europeus ante a ameaça atual. Hoje Merz está a ser questionado no seu próprio país pelo seu apoio. Sánchez tem demostrado que é valioso resistir. Por qué importa que a Espanha não seja outro país europeu governado pela direita extrema e a extrema direita, mais lá de que tenha ou não tenha pressupostos.

Sei que digo isto em Espanha e além de pedradas receberei risos de moita gente. Por isso na rua e nas conversas, só nas amizades, podes dizer isto. Conseguiram um ambiente tão negativo “ad hominem”, querem fazer-nos ver que vivemos numa ditadura que a corrupção é insuportável etc. Que para não entrar em confrontação alguns vivemos caladinhos como esses apolíticos-cidadãos que nunca dizem nada.

Quem queira ouvir que ouça, quem queira comprar o relato do PP, corrupto e condenado por corrupção, que mantém o poder na maioria dos governos autonómicos e utilizao para confrontar co governo de coalição, amém. Quem seja de extrema direita e amigo de Vox e o Chega, não tenho nada a dizer, só se for possível respeito democrático, mas isso é a antítese de Vox. Seja como for, a lição que oxalá aprendêssemos seria o respeito as regras democráticas e respeitar a constituição. Fora disse campo agora não há onde ir, só o Averno.


venres, 24 de abril de 2026

Manhã é 25 de Abril. A realidade que foi. Oxalá nunca mais voltar.

 
Encontrei-me por acaso com este artigo, que não sei que titulo teria, de Clara Ferreira Alves, apanhado não sei onde. Creio que merece ficar no presente-passado-futuro do que foi Portugal e do que éramos os seus vizinhos. Sirva também para recordar o 25 de Abril

Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.

Eu não ponho flores neste cemitério.

Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.

Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.