1957
O Manuscrito do capitám: Filho
dum guerrilheiro.
...../Despois de conversas vanais e gerais sobre a paisagem,
as costumes e outras curiosidades, o
senhor Miguel Morgado, tirando de empatía, façia-me perguntas tais como
era a vida na Academia Militar, que se estudava, como era o trato, que afições
tinha eu, se me divertia também numa cidade coma Zaragoza, que ele não conhecia
e quería saber como era. Também falamos de como era vida em Celanova, falamos um bocado da figura de são Rosendo e o mosteiro. Despois ele passou a
falar-me da terra dos mixtos onde estavamos nesse momento, que origem tinha e porqué
a estas gentes chamam-lhe os dos mixtos e deu-me uma dicas do que fora a historia do Couto Mixto. Falamos do tempo
tão caluroso de este verão, da Gardería Forestal do Estado que começa a plantar
de pinheiros os montes e da moito trabalho as gentes da labrança quando já acabam as épocas de sementeiras e colheitas,
ainda que nalguns lugares parece que tanto pinheiro vai perjudicar a moita ganderia de ovelhas e cabras. Enfim um
pouco de todo.
Ainda no meio
das conversas tão agradavéis do senhor Miguel Morgado, sem dar-nos conta demos
cabo duma boa comida feita de arroz com coelho e uns doces de sobremesa, todo
acompanhado dum vinho verde do Porto, uns copos de aguardente velha e café.
Despois fum invitado
a sentar-me num dos sofás e o meu lado sentou-se o senhor Miguel. O fondo a
vista deixava-se levar polas veigas de Tosende e Meaus até chegar a Sampaio e
as montanhas de mais alá que albergavam os
povos de São Martinho e Sabucedo. No inicio das
veigas via-travessar um menino
rio Salas que ia escorregando
entre pequenas pontes de paso e dous
pequenos moinhos que por aquí chamam azenhas.
O senhor Miguel acendeu um charuto e invitou-me a
outro que rexeitei, pois não tinha a costume de fumar charutos, ainda que eu
para acompanhâ-lo tirei da minha bolsa um cigarro de tabaco rubio americanom Winstom. O meu
anfitrião era, sem dúvida, um bom acolhedor, e estava acostumado a recever e
convidar a gentes com boas refeições.Comigo
pronto conseguiu um ambente cálido e de confiança.
Era destas pessoas que precissam de descontrair o seu invitado, sabê-lo
sentir-se cómodo, escoitâ-lo até façê-lo a persoa importante e protagonista do encontro de tal maneira que
ele parecia desaparecer do convivio e fazia do invitado a estrela que reluz.
Sabia escutar e dar nobreza e ênfase o invitado. Parecia ter moita experiência.
Embora eu seguía esperando um troco na nossa conversa,
algo importante tinha de chegar em
qualquer momento, pois isso era o motivo da minha visita. E este momento chegou:
—Caro amigo Manuel, querido tenente.
Trouxe-no aquí para dar-lhe informação sobre a sua vida.Informação que você não
conhece. Tal vez se incomode ou não lhe
beneficie o conhecê-la, mas como já lhe disse na minha carta eu tenho que cumprir coa promessa
feita.
—O seu pai biolóxico foi o meu amigo
Manuel Folgoso Quintana. Ele morreu apenas há dous anos perto de aquí na aldeia
de Pitões das Junas, moi doente no último ano por uma enfermidade pulmonar. A
sua mãe biolóxica foi assassinada apenas començar a guerra, quando tentava na sua fugida passar para Portugal dende o povo
de Hermisende, nas portelas do Padornelo,
lá na Seabra, em Zamora. Eu a sua mãe não a conhecim pero fui conhecedor da sua morte e
dos companheiros que a acompanhavam na sua fugida. Todos galegos da provincia
de Ourense que encontrarom na sua fugida a morte. Eu fui quem trouxe a noticia
o seu pai que não foi enterado da sua morte e seguía confiante em encontrar-se
com ela.
—Eu som de Zamora, das contornas de
Aliste, daquela era mestre rural e segum començou a guerra civil um grupo duma
cénturia da Falange vinha para matar-me e eu avisado a tempo puidem escapar prá Portugal e aparecim em Montalegre, moi cerca de aquí e alí contactei co
guerrilheiro mais intrépido da raia o “ Quintairos”. Ele foi quem me deu o
apoio que precissava quando pedi ajuda os fugidos. Contactarom-me com ele e
ajudou-me junto cos seus companheiros. Todos
tinhamos algún alcume para identificar-nos, ele elegiu ese nomem como homenagem
e recordo da sua aldeia mai. Eu era o “zamorano”.
—O seu pai morreu fai agora apenas dous anos. A pouco de você ingresar na Academia militar, ele ficou moi doente com
uma infermidade pulmonar contraída, seguramente, nos duros anos de fugida de
andar a dormir nos montes, friages, molhaduras,
fame, etc.;
sabia todo sobre a sua vida, sentiu as suas experiências como
se as vivisse ele mesmo;
eu era o seu enlace e informante. Eu tinha os meus
informadores sobre você. E nos últimos anos consegui travar contacto co seu
tío para conseguir um encontro entre você e ele; agora que já os tempos entre
peseguidores e fugidos estão calmos;
até
de agora todo isso era moi perigoso tanto para você como para o seu tio, e ele
não quería por nada do mundo ser um travão na sua vida, nos seus estudos e na
sua vida militar. Tinha uma ilusão enorme por poder falar com você, embora não pudo ser, o
mal avançou moito mais do que pensávamos
e morreu sem poder cumprir ese último desejo. No entanto morreu pensando em você e chorava de alegría e
emoção o saber de todo o que conseguiu.
—El era a solidaridade total, a loita
polos demais, a ajuda generosa e o home mais trabalhador e honesto que conheci;
estava moi orgulhoso do seu filho. E estava agradeçido o seu irmão, o seu tio,
que foi tão bom pai nestes anos. Já lhe disse que tentou e teimava por poder
contactar com voçê e co seu irmão, no
obstante eu, que conhecia a situação, sempre lhe dicia que era moi arriscado;
até de agora o governo que ganhou a guerra anduvo imparável contra os poucos
guerrilheiros que ficavam no interior da Galiza.
—Até 1947 faz nove anos tinhamos moita
actividade ainda na nossa zona aquí na fronteira. Mantivemos os comandos e a
nossa organização logística e operativa. Despois já estavamos cansos e a nossa
loita já não tinha futuro, ainda mais a guerrilha antifranquista do exilio e os
que ainda estavam no monte, também se disolveu.
—O franquismo está mais forte ca
nunca.Tivemos uma janela de ilusão aberta, coa vitoria dos aliados no abril de
1945, embora foi uma decepção de que houvesse um cambio e reconciliação em
Espanha, e doze anos despois Franco está mais asentado ca nunca no poder e
ainda moitos dos republicanos ou contrarios o Régime estão em busca e captura.
— Dende que Franco
foi apoiado polos Estados Unidos no ano 1952 esto empezou a cambiar ainda mais
para pior, pois os americanos vem em Franco um elemento importante na sua loita
mundial nesta guerra fría. Estou vai para adiante e como sabe faz dous
anos Espanha entro una ONU e até de agora as potencias europeias rejeitavam o
Régime, mas já todo mudou e agora Espanha está aceite como um socio europeu e
fala-se de que se va abrir emigração para Europa para poder trabalhar a nossa
gente;
assím como pode vêr nós já rematamos o nosso percurso, só desejamos que
a gente viva o melhor posível, seja co
Régime que for;
eu que fui um republicano activo e entusiasta hoje estou já
céptico de todo..../