
https://www.galizalivre.com/2026/02/05/ressacas-de-onte-e-hoje/
Ambos os dous grandes dicionários galegos definem quase do mesmo jeito a palavra ressaca: “refluxo das ondas” mas também, junto a outros significados menores, “mal-estar depois da borracheira”. Se indagarmos em trabalhos etimológicos, vemos que os especialistas apontam a um vínculo entre ambos os sentidos: pois quer a força violenta da onda, quer a energia desbocada livrada pola bebedeira deixam trás de si um rasto de limos, lodos e refugalhos, que podem ser físicos ou psicológicos.
Os estudiosos da açom coletiva dizem que os movimentos populares se exprimem como ondas, e neste ponto qualquer galega atenta à história enxergará com toda nitidez a imagem dos ciclos da nossa causa: a onda ou vaga de 1846, curtada polas armas do governo de Madrid; a onda ou vaga do chamado Segundo Rexurdimento, que eclodiu em 1916 e foi gorado duas décadas depois por um genocídio com efeitos sociais arrepiantes. Em termos mais curtos e dimensons muito mais reduzidas, desde 1975 à atualidade, as ondas de subversom arredista som freadas com coerçom polo Reino de Espanha e levam a refluxos mais ou menos prolongados. Nom equiparamos todas estas jeiras -seria mui simplom e até estúpido fazê-lo assi – mas si comparamos a sua dinámica: concentraçom de forças, onda em expansom, choque violento com um poder que as esfarela e debalar posterior em processos de ensimesmamento. Baseando-se noutra metáfora, o próprio Xosé Manuel Beiras ilustrava a causa galega com o mito de Sísifo, o rei condenado polos deuses a subir um penedo à cima da montanha, desde cujo cúmio caía, umha e outra vez, por toda a eternidade.
Estamos a piques de comemorar o 180 aniversário do início desta história de ondas sucessivas por Galiza ou, se se preferir umha imagem mais exasperante, de esforços colossais e finalmente baldios, sempre reencetados. Chegamos a perto dos 200 anos desde que Faraldo e os seus formularam a ideia da “grande obra”: “Álzase una nueva bandera y es la de la independencia de Galicia, aislada de las demás provincias”, escrevia o jornal madrileno El Imparcial no dia 7 de maio de 1846; “se evocan los recuerdos de Polonia, Irlanda, Italia y Turquía, como si fuese posible compararlos con Galicia”, ridiculizam os cronistas espanhóis, que se mofavam do betanceiro como “secretario del Reino de los Suevos”. Nos nossos velhos manuais universitários, diziam-nos que a umha insurreçom de militares liberais somaram-se em abril de aquele ano, de maneira um pouco ensonhadora e atordoada, um fato de estudantes románticos de ideias contraditórias. Nos últimos anos, pesquisadores como Xurxo Martínez ou César Caramês trabalham para assentar um novo paradigma que abanea as certezas e os autorebaixamentos com os que fomos mal educados geraçons e geraçons de galeguistas: o nosso movimento nom nasce de teóricos absortos, senom de pensadores para a açom; nom nasce de sagazes calculadores, senom mais bem de utopistas destemidos; nom se formula em termos de gradualismo e ambiguidades literárias, senom de vanguarda ideológica perfeitamente conetada com as ideias de emancipaçom europeias: “ese océano inmenso es la política, y nuestros jóvenes, arrojando con desesperación sobre la ribera su lira de poetas y sus instrumentos de artistas, se lanzan solos en su débil barquilla a ese mar tempestuoso tan célebre en naufragios (…) por eso, en vez de poetas, tenemos periodistas; en vez de literatos, tribunos”, escreve Puente y Brañas sobre aquela promoçom brilhante en 1847 (tirado de “Querida liberdade. Vida e obra dun precursor do Rexurdimento”, Xurxo Martínez, 2023).
Nesta primavera, na comemoraçom de 1846 com novas fontes e materiais divulgativos, teremos a ocasiom de assistir a um encontro feliz que o nosso movimento tem propiciado muitas vezes: o da pesquisa independente que nom se submete a pressons académicas nem partidárias, e o do trabalho militante de base que dá a conhecer a umha parte mais alargada da cidadania o que a erudiçom colheita silenciosamente
O socialista utópico Ramón de la Sagra dizia, com um chisco de paternalismo, que os moços de 1846 iam demasiado às pressas e neste digital, com a vantagem que nos dá a perspetiva dos séculos, temos apontado que um dos malfados do independentismo galego é ter chegado sempre antes de tempo. Seja como for, as nossas glórias literárias do século XIX, imediatamente posteriores a 1846, com a sua gigantesca influência política e moral, som filhas dumha traumática derrota e escolhem certo cálculo e autolimitaçom em formatos e discursos para fazer frutificar as suas empresa, longe da ameaça da prisom ou da morte violenta. Nom o dizemos nós, senom que o afirmou um pensador liberal, moderado e nom nacionalista como García Martí, que nos descobre recentemente Alberto Lema: “(el hecho de armas de 1846) señala el final de un proceso durante el cual Galicia ha manifestado constantes deseos de independencia política. (…) A partir de él, parece abandonarse un poco el terreno de lo político, desahogándose y reaccionando con más intensidad en el plano espiritual y puramente literario.” (“Galicia. La esquina verde”, 1934).
Nesta primavera, na comemoraçom de 1846 com novas fontes e materiais divulgativos, teremos a ocasiom de assistir a esse encontro feliz que o nosso movimento tem propiciado muitas vezes: o da pesquisa independente que nom se submete a pressons académicas nem partidárias, e o do trabalho militante de base que dá a conhecer a umha parte mais alargada da cidadania o que a erudiçom colheita silenciosamente em bibliotecas e em arquivos. Conheceremos e vindicaremos a primeira das nossas ondas de afirmaçom, e faremo-lo sem ceder a umha memória confusa. A ressaca dos nossos devanceiros causou um espírito de autocontençom que nom permitiu umha relaçom transparente com o passado e, portanto, hipotecou umha atitude construtiva e afouta no presente. Por isso, enquanto dignificamos a memória arredista remota, dignificaremos também a memória arredista recente, e com ela a vontade de continuarmos a ser, sem rebaixa algumha, o movimento entregado e atento aos seus tempos que se desenha e organiza; o que é sempre banido e volta umha e outra vez a germolar.