A tenda do senhor Eurico é uma tenda pequena que vende pouca cousa, e ele a verdade, não é moi simpático cos rapazes mas tampouco e maluco nem mal encarado. Nem uma palavra amável nem tampouco de desprezo. Só nos olha como clientes e como tais nos trata. Alí não há lerias. Temos-lhe um alcume, o coninhas, polo tacanho e forreta que é, pois numca da nem um caramelo nem um figo demais. Na tenda ainda tem uma antiga bomba prá despachar azeite de cocinhar prá vender a granel e sobre todo um enorme aparato de radio, que dizem trouxo de Venezuela cando estivo emigrado. A radio sona limpo, forte e aberto e escoita-se como se as pessoas estivessem alí mesmo a falar. É uma maravilha. Ele escoita os partes que dão as horas, especialmente o de medio dia e o da noite. Nós sentamos nos sentadoiros de fora, sobre todo agora no verão, prá escoitar o “parte” de Radio Nacional de Espanha. Ua sintonia de música inicial moi bonita que fica pegada nos ouvidos e uma voz sonora dum senhor que começa sempre: “Diario hablado de Radio Nacional de España” ; “Su Exceléncia el Jefe del Estado…”, ou: “su excelencia el Jefe del Estado y General del los Ejércitos D. Francisco Franco Bahamonde….” ou também: “hoy el Caudillo de España excelentismo d. Francisco Franco Bahamonde”... E frases assím que me resultam especiais e familiares e que sei de memória de tanto ouvi-las e repeti-las. Sentamo-nos fora nuns sentadoiros de pedra a meiodia ou a noitinha, no verão, para escoitar o “parte” que dava a radio, ou a vezes se tinhamos sorte punham música e cantantes, A mim gosta-me moito o “parte” do meio dia, começa com uma música sonora e sempre igual como sintonía, para dar passo a uma voz solene e retórica com um castelhano elegante falado por um alguém impersoal a quem lhe inventavamos uma cara, cada um a sua, e que parecia estar ali o nosso lado. Ali escoita-mos palavras como Vietnam, vietcong, Generalísimo, Movimiento, Falange etc. Na minha casa também há uma radio que se escoita de noite principalmente e especialmente um programa religioso o que acudiam umas vecinhas que não tinha radio e era fãs dum programa que fazia um tal padre Monroy. Falava moi bem sobre Deus e Cristo e a religião e em realidade não era padre, pois el sempre dizia só o seu nome : —“les ha hablado Juan Antonio Monroy”—, pero a minha vecinha e outros ouvintes fieis pensavam que era um cura, e não podiam chegar a compreender que falasse também de Deus algúem que não fosse “padre”. Eles adoravam o seu palavreio castelhano, fino e elegante, adornado cum melodioso sotaque hispanoamericano que lhe dava um ar beatífico e de ambente de finura que era moi apreciado por estes lugares. Passado um tempo descobrimos todos que este tal Monroy era protestante e ficamos todos pampos a um tempo ser para todos uma grande desilusão que nos obrigou, por remordementos de conciencia, termos de deijar de escoitar aquela retransmissão tão bonita. Aquí somos moito da católica, apostólica e romana.
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