mércores, 2 de setembro de 2026

Lendas da minha aldeia. O contrabando e o moinho.

 

.............—E ti,  que me contas do moinho da ribeira?.

—Uff, tenho moito que contar-che, ainda que não tão intrigante como o vosso. Bom, valeu a pena. Aprendim moito. O Pascual estivo só dende que chegamos; tinha encargados uns quantos sacos de grau pra moer e ninguém veu por ali. Entre o Eladio e eu dabamos-lhe conversa mentras o Antolas andava as troitas e pesquisando por toda parte para saber se havia alguma cousa interesante. Estava um pouco chispa e ainda meteu uns grolos de vinho estando nós ali. Seria por isso que estava falador. 

—Coitado, vive ali solitario. Nem ao povo vem de vez em quando. Afastado do mundo.

—Não penses, pois vai moita gente ali a moer, e uma moinhada pode botar uma, duas, ou mais  horas. E isso da-lhe companhia. Ele está acostumado, e gosta da soidade de viver lá naquele sitio tão bonito, cheio de auga, troitas, frutais, escondido num ribeiro manso do rio o pé da serra;

alguns dizem que quando vão mulheres soas para moer, algumas deixam-se  apalpar bem por ele e outros dizem que é um pouco maricalho e que gosta dos rapazes novinhos coma nós.

 Faladorias;já sabes. Sim, ele é de pouco falar coa gente; tranquilo,  parece todo dar-lhe igual. Moito do tempo está  um pouco bébado.

—Pois parece que che impressionou o moinheiro.

—Moito. Despois de contar-me a sua vida e as suas aventuras, qualquera ficaria comovido.

—Pois conta logo.

—Filho dum latoneiro ambulante, nasceu  em Penaverde por acaso. Dende neno co seu pai e a sua mãae percorreu todas as  aldeias da contorna e até algunas de Portugal. Quando chegavam a Baltar  acougavam quase um mês, faziam vida no forno da fonte e a gente era generossa com eles. Quando estalou a guerra ele era um moçote de dezasete para dazoito e já dominava o oficio do pai, que morreu dali a um ano. Ele seguiu um ano mais coidando da sua mãe enferma e indo dum lado para outro ganhando o seu pão. A guerra seguía mas ninguém reparou naquele latoneiro que não constava anotado em ningures. Morreu a sua mãe dali a pouco. Ouviu, que em qualquer momento alguém o apanharia para ser alistado; a Guardia civil já o conhecia e ele presentia que em qualquer momento ia ir o frente.  Então, adiantou-se e  tomou uma decisão: Fugir. Cruzou a fronteira e foi buscar vida em  Portugal.

—Que che parece a historia.

—Home, de novela. Pero imagino que ainda quedara o mais interesante, não.

—Pois sim, pero estuvem de  noite escrevendo nesta libreta todo o que me contou, para não olvidar-me. Toma,  vas lendo porque agora tenho que atender na casa. Moitas das cousas que me contou não as entendim, precisaríamos de alguém que nos explique. Ninguém nos falou da  guerra e os fugidos e esas cousas.

— Já me contarás que che parece.

Ah Manel, olha, temos que reunir-nos hoje sem falta, há moito do que falar, e ouvir de todos os companheiros a aventura na mina. A tua já escoitei. Adeus, até logo.Não te esqueças. 

Comecei a ler as notas escritas polo André :

“Fugiu, cando já a guerra levava dous anos.  Juntou-se com outros fugidos e foi acolhido polo grupo do guerrilheiro “o Quintairos”, que operava pola zona. Ele andava junto com ele para toda parte era um dos seus homens de confiança. Os guerrilheiros no queriam  incomodar moito nem a Guardia civil nem a GNR  para poderem ter mais liberdade para ajudar os fugidos. Tinham armas pero numca entrou em combate pois eles sabiam que entre uns e os outros exterminaría-nos de contado. Foi moi feliz nestes anos co Manuel Folgoso, “o Quintairos”, e tinham moito trabalho nos dous lados da fronteira para acolher fugidos ate que uns seguiám ruta em Portugal para fugir a outro país e outros deixavam passar tempo coa ideia de voltar a cruzar para Galiza. Tinham moitos colaboradores e casas para esconder-se e rutas e covas no monte e recibiam ajuda e comida,  armas e cartos,  seica dum inglés que era amigo do Quintairos e ajudava os fugidos. Percorreo moitos caminos dende Vinhais até Entrimo, incluso Castro Laboreiro, que seica estão moi longe de aquí. Ele conhece todos os sitios e as vezes facia passar-se por latoneiro  ou o que cadrase, e era uma vida divertida. Falou-me que na  zona de entrimo havia um guerrilheiro que lhe chamavam o Zamorano  que não andava fugido e vivía casado como um mais en Entrimo. Era a mão direita do Quintairos e dava-lhes moita ajuda naquela zona e noutras porque era comerciante e tinha camião e então andava dum lado pro outro com moita amizade cos Guardias Civis. O Pascual  não tinha familia nem nada e estava entregue para tudo o que figer  falta. Aquela era a sua familia.

O Quintairos pros Guardias e pros falangistas era um tipo misterioso que não sabiam de onde saira. Era moi escorridio e moi valente, ninguèm sabia quem era. Oficialmente fora fusilado no Furriolo, pero  escapou o pelotão de fuzilamentoentre na confusão da  escuridade da noite. Era respeitado e querido. Era mestre antes de fugir, e a ele ensinou-no a ler e a escrever e fazer contas.Orgulhoso ensionou-me a libreta na que apunta-va as moinhadas e as maquias correspondentesa e a ganância em farinha para o dono do moinho.

Contou-me que  se falava  que o ser apressado , “o Quintairos”, deixou um filho recem  o coidado do irmão e que agora ese filho é um alto cargo militar.

Rematada a guerra viveu entre Pitões e Salgueiro do negocio  do carbão. Numa feira em  Lobios um fulano reconheceu-no e foi-no denunciar a Guarda Civil. Foi presso, quatro anos por cárceres de varios sitios de Espanha. Libertado voltou a zona e como tinha amizade co moinheiro de Baltar deulhe este trabalho.

Só despois de explicar-lhe que nós queríamos saber como se movia o contrabando na raia, pois já estiveramos na mina, e disem-lhe nomes de contrabandistas e roteiros que já nos contara alguma gente, então foi quem de reconhecer que no seu moinho algo de mercancía se movia.  

Que o moinho era um sitio moi bom para contrabandear, pero que ele nada tem que ver com isso. Ainda que algumas vezes tinha ajudado em  algo os seus antigos colegas da guerrilha, já não tinha nada que ver com eles, e nunca lhes perguntou em que embrulhos andavam .

Que os Guardias a ele numca o molestam e venhem pouco polo moinho. Alguns quando venhem, por vezes, também traficam algo”.......