mércores, 23 de setembro de 2026

Lendas da minha aldeia. De como fomos uma tarde, em segredo, ver a velha mina do Wolfram. II

 

…..—O Gonzalito sorriu  e dixo-me:

—Manel, aquí nesta cova tem que haver algo do que buscamos. Imos ter éxito, vamos descubrir a causa do assassinato, já verás.

—Home, Gonzalo, não será pra tanto, vamos amodo.

— O malo e que estou vendo que  como entramos na cova. Como podes ver está bem fechada por uma anteira de pedra.

—Manel, se entrou alguém, também podo entrar eu. Bem se vê  que alguém entrou e meteu material, olha as pisadas a terra movida. Inda que parece que já faz algún tempo,  pois não são recentes.

—Foda-se, meu. Como vas entrar ahí? Ti não sabes o que pode haver. E o pior e que não vejo maneira de entrar.

—A esquerda da anteira nesse oco, abrindo-o um pouco podemos intentâ-lo, Manel. Mira, eu entrar dou entrado, seguro. Sou o mais fraquinho de todos nós. E temos uma lanterna e vou vendo que há.

—Ostras rapá, mira que és destemido. Mãe que me pariu, Gonzalo, tenho medo.

—Manel, não digas isso. Aquí o mais destemido de todo es ti. Então que estivo na morte do Carlos, quem viu  os assassinos esconder-se e quem valentemente se puxo a investigar todo e nos atraiu a nós todos nesta historia. Se andamos aquí e porque sabemos que ti es corajoso.  

—Já, Gonzalinho, pero isto  pode ser perigoso.

Então chamei o Tonho e o Rude:

 —Vî-de eiqui.  Tonho deixa-me a lanterna. Descobrimos esta cova, e está marcada por umas sinais que venhem dende alá atrás. Toma Gonzalito.

 —Vou entrar pra ver que encontro.

—Si home, e por onde vas entrar, não ves que está fecha de todo.—Falou o Rude.

—Não ves naquela esquina a esquerda como se tivera um peqeno buraco?. Pois vou ir, escavancando cos maus e  metendo a cabeça e coa lanterna vou mirando dentro e se vejo algo já me meto mais dentro ou saio.

O Rude não acreditava . O filho do veterinario, o  de familia de senhorio, que nem galego fala na casa, vai e é o mais atrevido de nós. Como se andivera toda a vida metendo-se nos cotos dos coelhos, nem que fora um furão.

O Gonzalo, lanterna em mau foi serpenteando polo pequeno oco da entrada e quando tal, o tipo,  já tinha meio corpo dentro e o outro meio  fora.

A sua voz soava com  eco, e falava alto para que ouviramos e eu penso que como reação lógica o medo.

—Estou indo, estou bem. Tenho a lanterna encendida, estou a olhar. A cova e fonda, eiqui cabem varios persoas. Vejo que está usada. Pode ser um lugar de acubilho para gente também. Estou a ver umas caixas e outros materiais que não sei que som. Acho que vou entrar mais dentro para ver melhor.

—Aquí tem habido gente a dormir ou a acocharse. Há palha e erva seca, até vexo uma zamarra velha. No teito até me parece ver morcêgos. Há tres caixas longas de madeira e umas caixas de cartão.—Seguia a falar-nos dende dentro. E nós calados e tremendo. Eu berrei-lhe.

—Conho, Gonzalo sai pra   fora, foder. Deixa a cousa assim.

—Vou ver as caixas.

—Ordia, joder. Não o ides creer. As de madeira tenhem cada uma tres escopetas ou fusiles da guerra, em total haverá nove escopetas. As de cartão  por fora ponhem “peligro dinamita” e estão cheias duns cartuchos grandes. Seguro que inda há de haver mais cousas.

—Vou sair. Isto já me da um pouco de medo. Daquela vou ir pra fora.

Sacou a cabeça e um braço todo e apareceu todo envolto naquela terra negra e húmida. Tinha a cara roxa e puxa-va com força para sair, pero ficou entalado no buraco polo que entrara.Tinha a cabeça fora, estava de lado, pero não conseguia sacar para fora a outra parte do corpo. Ficava entalado naquela merda de buraco no que nunca deveu entrar. Ficamos um pouco nervosos e asustdos e ele também.

—Não perdas a calma, tu tranquilo que entre todos vamos te conseguir sacar.

—Estou bem, vou tentar sair  doutro jeito. E se não,  vou sacar primeiro as pernas haver se me ajeito melhor.

—Não fagas isso, por favor. Se quedas presso e coa cabeça dentro, será pior, vas passar mais medo. Desta maneira, vamos intentar estar tranquilos. E sempre podemos ir buscar ajuda e mentres falamos contigo. Dame arrepio, sinto angustia só em pensar que não te vemos.

Mentres tanto o Tonho fincava forte co seu ombro contra anteira para conseguir uma firgua mais de espaço para liberar o Gonzalito. O Rude também andava intentar fazer oco na terra do arredor da entrada, mas todo era pedrogulho, cascalho e peneda.

—Calma Gonzalito—falou con tenrura o Rude— temos que seguir calmos, vamos a pensar.

—Ajudai-me, não me deixedes, tenho medo. Manel da-me a mão, precisso de vos.

—Es o nosso amigo,Gonzalo,  todos para um e um  pra todos. Ánimo, neno, imos sair adiante. Vamos calmar e pensar. Tem que haver uma maneira de sair. Se foste capaz de entrar, porque merda não se pode sair polo mesmo sitio.

Ficamos em silenço. Passarom apenas cinco minutos. E aquil silenço magoava-nos e afogava-nos. Porque foi tão destemido o Gonzalito? Algo tinha que sair mal, merda. Imos precisar de ajuda, o Tonho e o Rude tenhem que chegar a Santantuinho numa carreira e eu ficarei aqui co Gonzalito e todo se solucionará;

havia que pedir quanto antes ajuda, devem ser já entre as sete e oito da noite, as nove já será lusco-fusco; as nove e meia noite pecha. Temos de aviar-nos já.

Antes de eu falar. O Rude escomençou a escavancar no chão arredor da anteira.

—Então Rude, que fas?.

—Olhai. A esta cova entra e sai gente. Tem que haver uma porta e só pode ser movendo esta anteira. A força não se da, já o Tonho e mais eu tentamos e nada. Pensei nos canteiros. A mim gustan-me moito os canteiros quando andam a levantar uma parede duma casa, tenho-me fixado que rodam  pedras bem mais grandes como se fosse um pau de bimbio. E como fam?.Ponhem debaixo da pedra ums roliços pequenos de madeira  e  a pedra vai rolando por toda a parede até chegar o seu lugar.

—Daposto que aquí debaixo agochado na terra tem de haver algo que faga rolar a anteira. Algo que só conhecem uns poucos. Confiam em que ninguém consiga saber dos roliços.

Puxemo-nos todos a escavancar com toda a nossa força. A terra ia esparexida para tras com toda a raiva que tinhamos. O Gonzalito estava expectante e mirava-nos confiante.

—Rude, falou o Tonho, olha aquí já se ve a base da anteira. Olha está sujeita nas esquina por uma pedrinha, vê-la.

—Caralho, puta- que- a- pariu, sim fica debaixo um oco prá meter uns roliços e que se mova.- O que eu dizia, hostias. Me-cajo-na-puta, imos te abrir, filha-da-puta.

Num momento descobrimos também a outra cara da anteira também sujeita por outra pedra pequena no seu borde.

 

Pero. U-los os roliços?.Ninguém falou.Mira-mos arredor, algo falta ainda. 

O Gonzalito, ergueu a sua cabecinha e dixo:

— Estamos bem.Os que venham aquí não vão preparar uns roliços de madeira cada vez. Tampouco vão andar com eles o lombo. Tenhem que estar escondidos por aquí, como algo fácil para abrir esta cabrona desta anteira.

—Pois, adiante meus, a buscar, algo tem que haver cerca.

Dali a pouco berrou o Tonho eufórico:

—Niste buraco entre as pedras, aquí estam.

Tres roliços pequenos ferrugentos amanhados de material das máquinas da mina, estavam bem guardadinhos ali. O Rude pegou neles coma um tolo e colocounos na parte aberta da base da anteira. Cuma pedra desplazou as duas pedrinhas que sostinham a base e ficou a anteira descansando naqueles cilindros.

—Tonho, Manel,  empuxai  que eu controlo que não se saiam os putos chirimbolos istes.  

Assim foi. Sem demasiada força a porta deslizou-se para a direita  como se nada, aqueles cilindros  pareciam a última modernidade da mecánica. Berra-mos à solta; juramos cada um o nosso jeito coa raiva alegre do trunfo. O Gonzalito zafou-se da puta cova como um lagarto e abraçou-se a nós. Chorava e tremia e nós, com dissimulo,  também estavamos a chorar. Passáramos moito medo. Numca nos sentíramos noutra igual.

Ficamos sentados, aquietados. Aquelas penedas mal-feitas, penduradas umas nas outras pareciam querer baixar e brincar monte abaixo. O céu estava limpo, o sôl já esmorecendo davâ-nos nas costas. Estávamos sós, desfrutando do estar,  como se fossemos  os donos da mina;

naqueles momentos olvidáramos o motivo polo que estávamos ali. Que mais dava todo e isso que nas nossas costas fixeramos uma grande descoberta. Tentáramos o demo e saimos ceibes, só nos quedava fugir dali;

antes tinhamos que deixar tudo bem arrumado pra quedarmos limpos de todo e olvidar-mos  do pesadelo que tivemos;

recordo as palavras do Nestor. Se vos colhem com algún contrabando podem ir contra vós ou os vossos país. Então quando cheguemos a Baltar já será noite. O Nestor ao ver que os nossos país perguntem por nós, será o primeiro de dizer-lhes que vinhemos a mina. Incluso com seguridade  a Guardia civil e o pedáneo tocaram a concelho para vir-nos buscar;

se alguém voltasse ali e notasse qualquer mudança saberia que houvera visitas.. Temos que deixar todo bem arrumado e liscar;

companheiros, isto é o que ha: Eles assintirom  e começa-mos o trabalho com todo o interés. Fechamô-la porta empujamos a anteira. Tapamô-la coa terra escanvancada, gardamos os roliços e colocamos as pedrinhas que a sustentavam. Pasamos umas gestas a modo de vasoira para borrar pegadas......

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